[história] A cidade verde

Conheça a história dos facilitadores do nosso próximo curso e confira dicas espertas para começar a se conectar com os princípios da permacultura.

A cidade assusta. A pouca maleabilidade do duo concreto e aço, altos custos, longas horas de trabalho, a falta de conexão, a velocidade, a violência. A cada dia mais “comum”, o termo êxodo urbano tem tomado corações sensíveis, ávidos por liberdade, significado e vida simples. Afinal, quem é que nunca sonhou com uma casa no campo pra ficar do tamanho da paz? Mas para os permacultores — e facilitadores do nosso próximo curso, o Cidade Verde — Yuri Diniz, 26, e João Ramil, 24, a cidade ainda é um mundo de infinitas possibilidades.

Essa história começa há mais ou menos sete anos, quando o Yuri, agricultor nascido na cidade, se juntou a um amigo que gostava de plantar em uma viagem à Bahia, que incluía quatro dias de curso com o mestre Ernst Gotsch. “Quando ouvi o Ernst falar pela primeira vez, a sensação era de que a minha vida toda tinha sido arquitetada para que eu vivesse aquele momento. Apesar de não ter entendido quase nada, afinal, eu era completamente leigo e mal podia imaginar que existiam tipos de capim. Mas a essência de tudo o que ele dizia fazia muito sentido e me trouxe um senso de propósito muito forte”.

Daí foi voltar para o Rio — já tendo colhido seu primeiro aipim e conhecido algumas das espécies nativas da Bahia — para implementar os princípios de consórcio, biodiversidade e agrofloresta na própria varanda, na escala de vasinhos de planta. Mais tarde, Yuri então passou a ocupar o espaço do seu condomínio segundo as práticas do design permacultural (o que inclui de coleta seletiva e gestão de resíduos à estudos de captação da água da chuva); projeto piloto que, por sua vez, deu origem à CARPE, empresa que já toca há 6 anos ao lado de amigos, e em paralelo às aulas de sustentabilidade na Escola Parque.

Há dois anos, Yuri realizou o sonho de comprar uma terrinha para chamar de sua na Serra da Mantiqueira e viver da venda do alimento que ele mesmo planta, em viagens semanais da zona rural para a urbana. Para ele, a agricultura é um mecanismo pra gente se mostrar oportuno no planeta.

“Uma abelha, por exemplo, que precisa se alimentar e vai, de flor em flor, sugando néctar, tem como resultado do seu consumo um balanço energético positivo. Ao final do processo, ela cria mais vida e mais recursos a partir do que retirou da natureza e assim se mostra muito oportuna. Nós, seres humanos, podemos trabalhar dentro dessa mesma lógica, muito embora a lógica capitalista não seja análoga à lógica natural do universo de abundância, propósito, cooperação e interdependência”.

Calhou que, um belo dia, os serviços da CARPE chegaram aos ouvidos dos pais do João, que queriam transformar o jardim de casa em uma horta comunitária para 25 pessoas — que acabou virando uma agrofloresta bastante produtiva.

Nessa época, o João — que cresceu vegetariano em uma família envolvida há mais de 30 anos com práticas de yoga e meditação — já vivia o conflito de viver princípios opostos, dentro e fora de casa. Perto dos 18, passou a viajar regularmente em busca daquela conexão que vem justamente da desconexão da urbe, até que acabou parando no Festival de Permacultura da Serra do Tabuleiro, em Santa Catarina — para ele, um divisor de águas — e mais tarde, na Península do Maraú, onde teve o seu primeiro contato com uma estrutura permacultural. O próximo passo foi começar a mapear eco espaços há poucas horas de distância do Rio, como o Tibá, e entender que a vontade de fugir não era da cidade, mas da sociedade como ela está. Atualmente, ele está também a frente da Fenda, facilitadora de processos artísticos-culturais.

“Encontrei na permacultura uma forma de permanecer em harmonia com o entorno, no campo ou na cidade. Ela é uma espécie de anarquismo não-violento, que vira de cabeça para cima a estrutura desarmônica do sistema — o que engloba a forma como a gente se alimenta, mora, relaciona, organiza, etc — para criar vínculos entre pessoas e o ambiente ao nosso redor”.

O curso

Com o Cidade Verde, os meninos querem oferecer uma nova forma de olhar para a natureza, baseada no envolvimento, e não no desenvolvimento como o paradigma vigente gosta tanto de fazer, para criar relações de balanço energético enriquecedor e trazer novas funções para os espaços comuns.

Só de olhar para um canteiro aleatório, percebemos que a nossa relação com as espécies que nos rodeiam é muito doentia. Passamos por coqueiros, amendoeiras, trepadeiras, todos os dias sem saber seus nomes, tomar qualquer cuidado com as suas vidas. Queremos que estejam ali sempre bonitinhas, como se fossem de plástico, como se estivesse expostas em um museu.

Assim, a alimentação será a nossa porta de entrada para, como o João gosta de dizer, “práticas permaculturais mais pesadas”. No primeiro módulo aprenderemos a cultivar a nossa própria horta vertical, ideal para espaços reduzidos. No segundo, a ideia é estudar a aplicabilidade da agrofloresta em canteiros urbanos e entender o passo a passo para a liberação desses espaços ociosos. Se nasce grama, dá pra plantar comida. E além do mais, as plantas comestíveis também são lindas.

De todo jeito, o Cidade Verde se propõe a permear todas as etapas de um projeto criativa, da organização de pautas à captação de amplificadores, com os twists cognitivos da permacultura — esse termo que se popularizou por meio dos estudos do australiano Bill Mollison, nos anos 90, mas que há milhares de anos já vem sendo praticado intuitivamente por todo o mundo, e a cada mês, segue sendo resignificado em plataformas colaborativas como a Wikipédia.

Comece agora

Quer saber mais? Clique aqui para se inscrever no Cidade Verde — ou escreva para academia@ahlma.cc caso não possa, por algum motivo, se comprometer com o investimento sugerido — mas sobretudo, aproveite a lista de dicas abaixo, preparada pelos nossos facilitadores, para que qualquer um possa começar a entender um pouquinho mais desse universo tão fértil.

Livros

Permacultura: Princípios e caminhos além da sustentabilidade — David Holmgren, editora Chelsea Green.

Dicionário Crítico de Política Cultural — Teixeira Coelho, editora Iluminuras.

Manual do Arquiteto Descalço — Johan Van Lengen, editora B4.

Introdução ao Vedanta — Swami Dayananda Saraswati.

O Valor dos Valores — Swami Dayananda Saraswati.

O Poder do Agora — Eckhart Tolle, editora Sextante.

Documentários

Zeitgeist I, II e III — direção de Peter Joseph, disponível no Netflix.

What the Health — direção de Kip Andersen e Keegan Kuhn, disponível no Netflix.

Outros

Tibá — @tibario

Espaço Cria — @espacocria

Capim SeloVerde — @capimseloverde

Galpão Ladeira das Artes — @ladeiradasartes

House of Ink — @_houseofink

Na Salona — @na.salona

Espaço Pura Vida — @espacopuravida

Perestroika — @aperestroika

[história] Estamos comendo poliéster nos frutos do mar

História publicada no blog Ecocult, no dia 27 de julho de 2017. Para ler a versão original, escrita em inglês por Alden Wicker, clique aqui.

Tradução: Ligia Deschamps

Existe uma nova praga plástica no oceano. Nos Estados Unidos, já é um problema maior do que as garrafas plásticas, redes de pescar, e outros restos plásticos que você encontra na praia. Mesmo assim, é invisível ao olho nu. E não sabemos muito bem o que fazer.

Normalmente quando você escuta “microfibra”, pensa em panos de limpeza suaves e super absorventes. Mas nesse contexto, microfibras são os fios microscópicos que soltam dos tecidos sintéticos. Menores até do que as microesferas, aquelas adicionadas ofensivamente aos esfoliantes faciais e outros produtos que foram rapidamente banidas em 2015, e muito, mas muito mais numerosas nas águas da nossa costa e lagos.

Em um estudo que testou durante um ano a água da costa da Flórida, microfibras representam 82% do plástico encontrado. De acordo com o relatório da IUCN, entre 15 e 31% da poluição marinha plástica pode ser por pequenas partículas residuais de produtos industriais e domésticos, ao invés de itens de plástico maiores que degradam no oceano, e 35% desta poluição de microplásticos vem da lavagem de tecidos sintéticos. A Europa e a Ásia sozinhas jogam o equivalente a 54 sacolas plásticas de microplástico por pessoa nos oceanos.

Caso não sinta que isso é simplesmente errado, existe uma razão pela qual você deveria se importar. Estes microplásticos acabam no estômago da vida marinha, incluindo ostras. (Ah, as ostras não! São tão deliciosas e ecológicas!) Em um pequeno estudo realizado em 2015 na Califórnia, 33% do peixe testado tinha detritos de origem humana no intestino, e 80% desses resíduos era composto por pequenas fibras. As microfibras podem absorver toxinas que estão na água, então quando o peixe as come, ficam presas no estômago e intestino e as toxinas se acumulam dentro dele… e depois dentro de você. Um estudo mostrou que caranguejos que ingerem fibras sintéticas comeram menos e tiveram menos energia para crescer, uma constatação assustadora, dado a onipresença das fibras.

Como isso aconteceu? Bem, uma jaqueta fleece de poliéster pode soltar 100.000 fibras, ou 1,7 gramas, em cada lavagem. As microfibras são tão pequenas (você não consegue vê-las a olho nu) que passam direto por filtros tradicionais e estações de tratamento de água. Um estudo de 2011 mostrou que microfibras eram ainda mais abundantes nas proximidades de estações de tratamento de água. Um estudo de 2016 estima que as estações de tratamento de água despejam 56 milhões de partículas de microplástico, quase todas microfibras, na baía de São Francisco todo dia. Aí os peixes as confundem com comida e as ingerem.

Infelizmente essa é uma questão que se mostra muito mais difícil de resolver do que as microesferas, que podem ser facilmente substituídas por areia ou outro esfoliante natural. Poliéster está presente em quase tudo que vestimos — roupas atléticas, jeans com stretch, roupas de praia, meias — por causa da sua flexibilidade. É o tecido tecnológico e leve no seu sofisticado casaco novo. É mais barato do que 100% das fibras naturais, então vai continuar a ser comprado e usado por marcas e consumidores até terem uma boa alternativa em preço e performance.

Existe um projeto da Plastic Soup Foundation na Noruega e a Parley for the Oceans para começar a entender como prevenir a perda de microfibras, mas ainda está em um estágio muito, muito incial. O varejista canadense MEC e uma marca de vestuário para atividades ao ar livre Arc’teryx pediram no início do ano aos pesquisadores do Aquário de Vancouver que desenvolvessem um protocolo para rastrear as fibras sintéticas de seus produtos até o oceano. Eles esperam que o protocolo se torne padrão da indústria e seja adotado por outras marcas também. Mas, na verdade, estamos apenas nos estágios iniciais de resolver esse problema.

Então, o que você pode fazer?

  1. Doar para o Ocean Conservancy, Plastic Soup, 5Gyres, ou para o Rozalia Project, que estão trabalhando nesse problema.
  2. Reduzir o consumo de produtos sintéticos. Se você puder escolher entre tecidos naturais ou sintéticos quando estiver comprando uma blusa, ou uma calça, ou um casaco de inverno, escolha opções naturais como algodão, linho, lã, seda, Tencel/lyocell, etc. No entanto, não acho que a maioria das pessoas conseguem cortar completamente poliéster das suas compras ou do seu uso. E ao contrário da maior parte do mercado da moda, esse é um problema gerado pelo uso, não apenas pela compra, então não recomendo que você jogue fora dois terços do seu guarda roupa. (Doar as suas roupas não resolve o problema, já que a pessoa que comprar vai usá-las e lavá-las.) Se você quiser subir em um pedestal moral e me dizer que simplesmente jamais poderia usar poliéster sabendo sobre as microfibras, eu te desafio a se livrar de todas as suas roupas que tenham sintéticos e não comprar nada com poliéster, acrylic ou nylon no próximo ano e me contar como foi. Com fotos dos seus looks. Por favor, me prove o contrário! De toda forma, no momento, estou focado em soluções de larga escala e não em pequenas e individuais.
  3. Compre de forma inteligente quando precisar comprar poliéster. Em um teste realizado por um aluno da Universidade de Santa Bárbara e patrocinado pela Patagônia, observou-se que os casacos mais sofisticados soltavam menos fibras do que os casacos mais baratos e de menor qualidade. Um estudo recente mostrou que poliéster reciclado não é mais propenso a soltar fibras do que um tecido novo, então continue a comprar poliéster reciclado quando possível. Aparentemente, a escovação durante a produção aumenta a perda de fibras, então escolha sintéticos não escovados (que não sejam fofos ou macios).
  4. Lave conscientemente, para minimizar a perda de fios. Lavando apenas roupas que realmente estão sujas. Separe as suas roupas sintéticas (acrílico, poliéster e nylon) em uma pilha e compre uma bolsa Guppy Friend para usar na lavagem. (Você também pode querer se inscrever para notícias de quando a Cora Ball será vendida). Fique longe de sabão em pó, especialmente aqueles com ação oxidante para remover manchas, mas adicione amaciantes naturais. Lave em um ciclo curto e com água gelada.
  5. Envie um e-mail para uma empresa de máquinas de lavar e pergunte quando filtros de microfibras sintéticas já virão de fábrica. Se você tem essa escolha no momento, escolha uma máquina de lavar com abertura frontal, que leva a menor perda de fibras e considere instalar um filtro externo.
  6. Envie um e-mail para uma empresa que você gosta e que venda roupas sintéticas, perguntando “vocês vão pedir aos seus fornecedores de tecido que adotem tecnologias que reduzam a perda de microfibras?” Indique a eles as recomendações das organizações de pesquisa europeias Mermaids‘ e Mistra Future Fashion‘s.
  7. Conte aos seus representantes sobre as suas preocupações com a poluição de microfibras e que você apoia que os filtros nas máquinas de lavar sejam mandatórios e um imposto de poluição sobre as fibras sintéticas.

Ainda estamos nos estágios iniciais de entender esse problema, mas espero que possamos agir para combatê-lo. Seguir as recomendações acima pode nos ajudar a caminhar na direção desse objetivo.

[entrevista] Aldeia em cena

Há vinte anos Mari Corrêa forma cineastas indígenas no Xingu para que suas vozes transponham as fronteiras do parque. Agora, é hora de ouvir as mulheres

texto Fernanda Nascimento
fotos Thays Bittar

Ela não queria simplesmente ensinar os índios como operar uma câmera. Para a cineasta Mari Corrêa, o vídeo é uma arma poderosa e uma maneira dos povos indígenas registrarem sua cultura e defenderem os seus direitos. Nas oficinas que realiza nas aldeias desde 1998, ela forma cineastas capazes de contar sua história para pessoas a milhares de quilômetros de distância.

Mari produziu, dirigiu e editou mais de 30 filmes, vários deles em parceria com realizadores indígenas que passaram por suas oficinas. Por dez anos ela foi codiretora da ONG Vídeo nas Aldeias, até criar em 2009 o Instituto Catitu. Entre os projetos que realizou à frente da organização que fundou estão a formação audiovisual das mulheres indígenas e as rodas de conversa das mulheres xinguanas, que buscam fortalecer o protagonismo feminino.

Dois anos atrás, a cineasta foi à Conferência do Clima, em Paris, para exibir o documentário Para Onde Foram as Andorinhas, que revela como os efeitos das mudanças climáticas estão interferindo na vida e na cultura dos povos indígenas. Seu próximo projeto é de novo dar voz às mulheres, desta vez para entender como elas estão sentindo as consequências dessas mudanças na sua relação com a terra, a natureza e o cotidiano.

Há vinte anos você forma cineastas indígenas para que eles possam compartilhar sua visão de mundo. A imagem que temos do índio ainda é muito deturpada?

Existem duas visões que coexistem e são baseadas numa imagem totalmente falsa. Primeiro o discurso dos fazendeiros, madeireiros, garimpeiros e toda a politicagem da vizinhança, que disputa o território com os índios e acha que eles são atrasados, um obstáculo para o desenvolvimento. Esse discurso não só não mudou como está cada vez mais forte. Já entre os habitantes das cidades existe a imagem de um índio idealizado, da floresta, de cocar, sem relógio e que não fala português. Mas esse índio não existe mais. É como se a gente tivesse que se vestir até hoje como na época da colonização, com os homens andando com as roupas do Pedro Álvares Cabral. Os índios podem estar no meio do mundo urbano e manter características de sua cultura que o fazem se reconhecer como tal. A imagem idealizada, desse índio “puro”, é o que nega a ele a cidadania.

Seu primeiro contato com o Xingu foi em 1992. O que você sentiu quando chegou lá?

Não tinha a menor ideia de como era uma terra indígena e nem que aquilo ia se transformar na minha razão de viver. Quando cheguei, tive uma sensação de familiaridade com aquele lugar, me senti muito em casa. Eu queria fazer um filme sobre a relação entre a medicina ocidental e a cultura indígena e conheci um pajé kaiabi que viu ali a oportunidade de deixar um testemunho para os seus descendentes. Eu morava na França e durante cinco anos fiquei indo e vindo para gravar. Quando ficou pronto, o filme [O Corpo e os Espíritos] foi premiado no festival de Jean Rouch e começou a circular. Antes mesmo de eu decidir que ia continuar trabalhando com isso me convidaram para fazer um filme sobre a questão indígena na América Latina.

Essa foi a oportunidade de se aprofundar mais nesse universo?

Eu resolvi fazer um filme para falar sobre identidade indígena, como alguns povos estavam se relacionando com o mundo exterior e como se viam no mundo contemporâneo. Sair da ideia do índio do passado, clichê e passar para uma coisa mais real. Não queria gravar com grandes estudiosos, a ideia era dar voz a eles. Sempre tive essa preocupação. E daí nasceu o filme, que se chama Vozes Indígenas.

De surgiu a ideia de fazer oficinas para formar realizadores no Xingu?

Enquanto eu estava produzindo O Corpo e os Espíritos no Xingu, trabalhava na França no Ateliê Varan fazendo formação de documentaristas. Me convidaram para dar uma oficina na Nova Caledônia com um povo tradicional chamado kanaki. Foi muito bonito porque a transmissão de conhecimento entre os mais velhos e os jovens estava enfraquecia e o processo do vídeo fez com que eles se reaproximassem. Essa experiência me deu vontade e inspiração para fazer algo semelhante no Brasil. Eu queria voltar ao Xingu para formação de realizadores indígenas.

Como isso se concretizou?

O pessoal do Ateliê Varan me falou sobre o trabalho do Vídeo nas Aldeias e eu fui lá conhecer. Naquele tempo eles não tinham essa coisa de fazer filme de índio, não editavam o material produzido por eles. Era mais a ideia do registro, da troca de experiências para um povo conhecer o outro. Mas eu queria fazer formação de realizadores indígenas. Um ano depois, surgiu a oportunidade de montar uma oficina no Acre durante uma formação de professores indígenas.

E deu certo?

Eram cinco professores indígenas, um de cada etnia. Nós tínhamos duas câmeras VHS. Como o curso acontecia em um sítio, e não no ambiente da aldeia, decidimos registrar o que estava acontecendo ali. E foi incrível. Daquela experiência de dez dias saiu um filme e deu para perceber que era possível aquele jeito de fazer, da experimentação, de dar a câmera na mão e depois conversar. A partir dali resolvemos fazer oficinas nas aldeias e por um período mais longo. Primeiro fomos para uma aldeia ashaninka, no Acre. Para poder editar na aldeia a gente pegava aquela canoinha com uma máquina enorme e as fitas VHS dentro de um isopor derretendo no calor. Não sei como dava certo.

Como funcionavam as oficinas de formação?

Essa coisa da técnica eles pegam muito rápido. A questão não é tanto como você aperta o botão e muito mais como você se coloca em relação àqueles que vai filmar. Eu tinha alguns dogmas como, por exemplo, não filmar de longe. Você não põe uma teleobjetiva na câmera e filma escondido a mulher que está tomando banho. Se ela deixar você filmar, então é porque está compartilhando com você sua história. Se você tem que se esconder, alguma coisa está errada. Só se esconde de onça, de gente não. Claro que o material tinha que passar por uma edição para poder atingir o público leigo e a gente fazia muita questão de não deturpar o que eles estavam dizendo ali. Quando dava, a gente fazia a edição na aldeia, senão convidava eles para ir editar na sede do Vídeo nas Aldeias.

A oficina para mulheres realizadoras indígenas só aconteceu em 2009, mais de dez anos depois das primeiras experiências de formação no Xingu. Por que elas demoraram tanto para participar?

Quando cheguei no Xingu, nenhuma mulher que conheci falava português. Os homens eram os interlocutores e faziam a ponte entre a aldeia e o mundo não-indígena. Então eles começaram a ter mais acesso às coisas dos brancos. No começo isso significava fazer a comunicação via rádio, depois dirigir os barcos a motor… Tanto é que os Villas Boas inventaram caciques, que não eram obrigatoriamente os chefes tradicionais, mas pessoas que se sobressaíam nessa interculturalidade. O domínio do mundo do branco deu um poder ali dentro que não existia.

Por não falar português, as mulheres não tinham as mesmas oportunidades?

As meninas foram dominando esse mundo num processo muito mais lento, o que acabou criando uma assimetria enorme. Por que elas não podiam ser agentes de saúde, professoras, cineastas indígenas ou o que elas quisessem? Porque não tinham acesso, porque ninguém estava propondo para elas. A mulher é muito valorizada no mundo indígena, ela não é uma subalterna do homem de jeito nenhum. As relações de poder são diferentes, mas elas têm seu espaço. Se não podemos falar em machismo no mundo indígena tradicional, passa a existir uma certa forma de machismo quando se começa a incorporar coisas do mundo de fora. Elas perderam por causa do contato.

Como você conseguiu finalmente levar as mulheres para trás das câmeras?

Eu sempre chamei as moças para participar das oficinas, mas nenhuma aparecia. Aí pensei: será que se eu criar uma formação audiovisual só para as mulheres muda alguma coisa? Porque os homens sempre tomam a dianteira. Fui à um encontro de mulheres e levei as câmeras. Lá tinham muitas lideranças e todo mundo me conhece, então aproveitei para propor uma primeira experiência. Pensei que viriam mocinhas, mulheres solteiras… Mas a vontade era muito maior que eu imaginava. Uma delas estava lá com o neném no colo e a câmera na mão. Aí eu vi que era isso mesmo que estava faltando, criar um espaço só para elas.

Você convidou a cineasta Tata Amaral para participar da primeira formação de mulheres, que resultou no filme A Cutia e o Macaco. Como foi essa parceria?

Eu queria desmistificar a ideia de que tem que ser jovem para fazer filme. Queria que as mulheres mais velhas participassem porque são elas que conhecem a história. Nem sempre o diretor é o cinegrafista e a Tata é uma cineasta que não pega na câmera. Ela conseguiu uma abordagem para mostrar isso. A gente produziu um filme com mulheres de 18 a 70 anos participando. O período da oficina coincidiu com uma expedição que os homens iam fazer para o território antigo deles fora do Xingu, então na aldeia ficaram praticamente só as mulheres. Não tinha nenhum realizador homem, ninguém para competir, foi muito bom. Depois levei a oficina para outras aldeias.

Além das formações, seu trabalho com as mulheres continuou com o projeto das rodas de conversa. De onde surgiu essa iniciativa?

Elas me pediram apoio para fazer um encontro de mulheres do Xingu. Queriam falar sobre questões como a saúde da mulher e sobre uma associação que já tinha sido criada, mas estava parada. Quase 300 mulheres se reuniram na cidade, em Canarana, com toda a logística que isso demanda. Eu participei e sugeri fazer um projeto itinerante. Se a associação quer representar as mulheres do Xingu tem que ir até elas porque o território é muito grande. E aí nasceram as rodas de conversa das mulheres xinguanas. A associação definiu como sua missão dar voz às mulheres, porque atualmente muitas decisões são tomadas sem consulta-las. Nas questões da comunidade elas são influentes. Mas não nas decisões políticas, regionais, dentro da governança do Xingu. Por exemplo, um dos temas recentes é o turismo em área indígena. É algo que impacta diretamente sobre elas e elas não foram consultadas. Então as mulheres reivindicam mais espaço nessas esferas de discussão.

No seu documentário mais recente, Para Onde Foram as Andorinhas, você retrata o impacto das mudanças climáticas no Xingu. Você já vinha observando esses sinais?

O impacto do aumento da temperatura é ainda mais forte na região por causa do desmatamento do entorno. Quando você olha o Xingu, vê que ele virou uma ilha no meio de um grande deserto. Eu sentia que o calor estava aumentando e o rio secando, mas muitas das mudanças são sinais. Para vários povos, a floração dos ipês anuncia a chegada das chuvas e é a época em que eles começam a plantar. Mas esse indicador não está mais funcionando, então eles plantam, o sol continua forte e queima as mudas. Se a roça não vinga, há um impacto na segurança alimentar dos povos. Outro sintoma são os incêndios florestais. Há centenas de anos os índios dominam o uso do fogo para fazer a queimada, mas hoje eles perdem o controle porque a vegetação está muito seca e não reage da mesma maneira.

O que pode ser feito para reverter isso?

Há coisas que não tem retorno, então hoje se fala muito sobre adaptação. Os povos têm que mudar algumas práticas que sempre funcionaram e hoje não funcionam mais. Eles têm um conhecimento inacreditável do ecossistema onde vivem e colocar isso em cheque é bastante triste, mas ao mesmo tempo é uma realidade. Existem práticas que vão ter que ser revistas, como é a questão da água para nós. A diferença é que eles não têm culpa nenhuma nessa história.

[websérie] SEARCH.DOC COMPLETO

Encontros, histórias e [profundas] conexões. Em busca de se (des)conectar com o mundo e se conectar com a natureza, José Camarano viu em uma viagem de quatro meses no Havaí exatamente o que precisava. Vivendo lá, em uma comunidade ao lado de outros 15 voluntários, naturalmente surgiu a ideia de registrar suas experiências e transformá-las em uma websérie. E a ideia não só foi muito bem recebida, mas abraçada por todos que moravam naquela comunidade. “Quando vi, estávamos fazendo um filme colaborativo”.

Passando por transformações dia após dia, um dos pontos altos de toda a jornada foi a decisão de compartilhá-la. A oportunidade de dividir conhecimento e um pouquinho das experiências que viveu é o que mais desperta seu carinho pelo projeto: “ver cada pessoa tocada de alguma forma pelo conteúdo foi a melhor recompensa.”

E daqui pra frente? Camarano — e nós também — já não vê a hora de embarcar na próxima aventura e continuar suas buscas, fazendo mais imersões para explorar a vida. “Prometo compartilhar novas descobertas. Nos vemos de novo em breve por aqui.”

Agora, você pode assistir à websérie completa abaixo, o registro final de todas essas experiências.

Mahalo, aloha!, e vamos juntxs.

[história] Brilho do breu

Em uma conversa com Victor Apolinário, diretor criativo da Cemfreio, mostramos o que está por trás (e à frente) do desfile da marca na SPFW. Por Priscilla Neves.

Nascida de experiências, processos de cura e muitos questionamentos, a Cemfreio lacra por onde passa — e sem parar. Mais que uma marca de roupas, um espaço de discussão aberto, com conversas, trocas constantes, e principalmente, aprendizado.

Entre seus vários assuntos — que permeiam raça, gênero e sexualidade, temas muito presentes na vida de seu idealizador — o mais novo a entrar em pauta é a produção consciente. Para (re)pensar processos criativos, Victor Apolinário, diretor criativo da Cemfreio, tinha um objetivo principal: criar parte da nova coleção da marca causando menos impacto na natureza.

Processo de mudanças

Apolinário é uma daquelas pessoas que não tem medo de levar para os outros o que acredita. Aberto, também não recusa oportunidades de desconstruir conceitos e fazer as coisas de novas formas. Já pronto para experimentar um novo processo de criação, ele conta que a sustentabilidade, inicialmente, não era parte dos objetivos da marca. “Pra mim isso nunca foi uma questão. O lance de pensar verde, de pensar nessa consciência maior, refletir sobre os resíduos gerados para criar uma ideia”.

Após criar algumas peças da coleção a partir de roupas já criadas da AHLMA e outras matérias-primas de reuso, alguma coisa mudou. Com o trabalho feito, Apolinário saiu não só com uma nova coleção para a Cemfreio, mas também com um novo pensamento em relação a moda. “Entender onde estão as deficiências do processo convencional e fazer disso uma oportunidade de construção mudou não só o meu mindset, mas o da marca como um todo.”

Além da roupa

Em suas próprias palavras, sua maior preocupação sempre foi as pessoas. E elas sempre estiveram no centro de sua narrativa. Falar com elas, ouvi-las, entender suas necessidades e seus anseios é o principal objetivo de Apolinário. E assim, ele adiciona produção responsável a essa questão, relacionando ao contato humano.

Em sua carreira, sempre esteve trabalhando com uma diversidade de pessoas. Durante a criação e produção do Brilho do Breu, ele ficou (ainda mais) próximo das costureiras e viu uma oportunidade valiosa de troca: por que não, desde já, passar os conceitos trabalhados na marca e na coleção, como o corpo agênero, enquanto ouve sobre um universo do qual ainda não fazia parte?

A partir daí, sentiu uma conexão profunda com todos os envolvidos e afirmou para si: esse processo não acaba no resultado final, nas roupas, no legado sólido que a sustentabilidade nos deixa; mas continua, além do tátil, para o intangível, o não-palpável — as relações que formamos nesse caminho.

E no mesmo caminho, aconteceram momentos diferentes de aprendizado e conexão. Ele teve, inclusive, a oportunidade de doar os retalhos de sobra para uma ação educativa para idosos, em São Cristóvão, fazer artesanato. Assim, vivenciou e sentiu de várias maneiras o impacto que o baixo desperdício pode ter na vida das pessoas — não só na sua, não só no vestuário.

Mais um compromisso

Executar a coleção e vê-la tomar forma nesse processo mostrou que é possível criar em colaboração com a natureza. Apolinário fez da produção consciente seu mais novo compromisso, adicionando-o à extensa lista de causas com as quais se envolve com orgulho. “São de microatitudes políticas que a gente consegue executar uma nova visão do que vai ser o futuro, do que o futuro pode esperar da gente ou o que a gente pode esperar dele”. Com uma nova frente de discussão para a Cemfreio, Apolinário agradece por tudo que realizou, tanto pelas coisas sólidas, como — principalmente — pelas abstratas.

Ao fazer e sentir a diferença por meio do aprendizado e da troca no processo, ele segue pronto para começar novas conversas e participar ativamente da construção de um novo jeito de fazer moda. E declara: “Não é mais sobre bater na cara de quem está do lado de fora fazendo errado, mas lecionar quem está querendo fazer certo. É dar ferramenta, ajudar a executar novas formas de produção”. E vamos juntxs.

O resultado dessas experiências você pode ver hoje, dia 31/08, às 20h, no desfile da Cemfreio na SPFW. Acompanhe a cobertura no Instagram da @cemfreio e @ahlma.cc.

[entrevista] Carolina Bergier

Conheça a facilitadora de processos vocacionais, empreendedora da Casa Sou.l e co.criadora do primeiro Curso AHLMA, o OHBRA.

Quando Carolina Bergier conheceu a Academia da AHLMA, ainda em obras, e soube tudo o que ia rolar por ali — da lavanderia ecológica às coleções gender free — foi lhe vivendo uma coisa. Quis colocar seus dons e talentos a serviço do projeto, co.criando com a marca uma experiência de três dias sobre a obra que precisamos viver para mudarmos a estrutura das coisas. Em um momento do mundo que pede obras profundas, que obra estamos criando? Que legado estamos deixando? Essas e outras perguntas, ela nos ajuda a começar a responder, aqui embaixo, para já.

Não é sobre uma marca de moda

“O curso nasceu de um encantamento com a materialização de tantos conceitos importantes aqui na AHLMA. Há muita coisa para se comunicar — tanta, que a gente entendeu que cabia à experiência de marca ser também um processo educacional. Há anos de estudos e vivências por trás do projeto, e o OHBRA, de certa forma, é como uma tag completa que não coube em uma etiqueta de roupa. Entendemos a necessidade de nomear os conceitos e a importância de, nesse momento do mundo, nos responsabilizarmos pela nossa estada na vida, simplesmente porque se não cuidarmos agora, não vai ter depois. Esse curso é uma maneira de honrar a nossa existência na Terra e dizer “embora possa ser desafiador, nós gostamos de viver essa experiência, e gostaríamos de continuar aqui”.

Nem sobre criar uma marca que cuida do mundo

É sobre se comprometer a cuidar do mundo. E mudar a frase você trabalha com o quê? para você cuida de quê?.

“Não temos mais tempo de abrir um departamento de responsabilidade social em uma empresa. Responsabilidade — palavra que vem de habilidade de responder — precisa ser uma virtude comum a todos os negócios. Assim, o curso foi construído de fora para dentro e terá três momentos: o de olhar para dentro e descobrir o que faz sentido a nível individual; o de investigar como uma empresa pode e precisa se responsabilizar pelo que faz; e o momento de comunicar tudo isso. Tudo comunica. E para você poder comunicar, primeiro você precisa ser. Vivemos um tempo muito conectado à coerência, de forma que é muito fácil perceber quando uma marca é incoerente e fala da boca para fora. Também não é mais sobre sustentabilidade. Gostamos de trabalhar com a ideia de regenerar (a vida na terra), criar mais vida, porque sustentá-la já não é o suficiente”.

Não é (só) sobre fazer o que se ama

Mas colocar os nossos dons e talentos a serviço do outro.

“Não vamos dar conta de, individualmente, solucionar os problemas do mundo, tão complexos. Uma só cabeça não tem a capacidade de gerar as transformações necessárias hoje, e por isso precisamos, a partir do despertar dos propósitos individuais, nos reunir em grupo e conectar uma inteligência coletiva que possa cuidar do que está acontecendo. Desde que propósito se tornou essa palavrinha que a gente usa tanto — praticamente a nova sustentabilidade — tenho percebido um certo egoísmo no ar, no sentido de que somos universos muito amorosos para nos doarmos só para nós mesmos. Podemos espalhar a essência de amorosidade que somos colocando nossos dons e talentos a serviço do outro também”.

Não é sobre largar tudo

É sobre criar as condições necessárias para que você possa se ofertar para o mundo.

“Eu não sou militante do pedido de demissão e vejo muita relevância no intraempreendedorismo, que é o empreender dentro de uma empresa. 
É servir um vetor de transformação, seja você CEO ou estagiário. Temos organizações onde isso é mais fácil de ser feito, que já nasceram com o propósito de regenerar a vida; e temos todas as outras, que nasceram na competição, no ganha-perde e no comando e controle, onde consiste o maior desafio. Muitas vezes não é só uma questão de o mundo precisa que a gente faça diferente, mas dos próprios colaboradores dessas empresas já não estarem mais aguentando e já não verem sentido nesse formato. Mas para mudar o curso desses Titanics, precisamos criar as condições necessárias, encontrar pares que nos ajudem a fazer esse movimento. Da minha perspectiva, isso me remete ao que eu chamo de transbordamento, que é você viver tanto a sua própria verdade que o outro não tem nem como discordar”.

Não é sobre verdades absolutas

Mas sobre algo que é tão, mas tão verdadeiro para alguém, que as relações mudam de nível e deixam de ser sobre concordar ou discordar.

“É muito interessante porque, embora a gente fale de coisas muito práticas, exercícios, frameworks, existe uma magia que vem desse lugar de naturalmente vibrar quem se é. Deixar legado é também materializar o espírito de alguma forma, e não ficar só no papo harebô de meditar para mudar o mundo. Meditar é sim muito importante, mas vivemos na matéria e as empresas e organizações fazem parte dela. Aliás, eu quero mais é colar com quem gosta dessa matéria, do consumo, da estética, e falar ‘olha, tem um jeito de fazer que não é só novo e lindo, mas também cuidadoso e verdadeiro’ e expor todo o sentir por trás desses cabides, por exemplo”.

Não é sobre o que eu vou fazer para sempre

Mas sobre o processo de ser estar no mundo, fiel à própria existência.

“OHBRA também vem de obra de arte— e o que é uma obra de arte? A obra de um artista nunca termina, está em constante transformação e (auto)criação. Então não é sobre encontrar um propósito e dizer cheguei, acabou. Espero que as pessoas venham para o OHBRA com o desejo de se encontrar com o que faz sentido na vida delas agora, e a partir disso, começar a navegar em direção ao que elas têm para ofertar ao mundo. Eu já não acredito mais nesse é isso que eu vou fazer para sempre. Eu posso atravessar a rua, dar de cara com um outdoor e mudar a minha vida, e a minha vida já mudou. Isso de encontrar um trabalho dos sonhos e para a vida toda pode ser muito paralisante. Não adianta querer erradicar a fome na África sozinho. O ideal não existe, precisamos cair na real. O que vai existir é o que é possível agora. Se agora é possível fazer uma coleção de cinco peças com tecidos de reuso, eu vou fazê-la, vou dar esse passo. E vou me fortalecer nesse passo, entendendo o que, dentro de mim, faz sentido ou não. Vou dar esse passo e meu melhor, tudo o que eu tenho, comprometida com o que eu estou fazendo”.

Então não é sobre fazer para ser, mas fazer aquilo que se é

E se deliciar com a liberdade de se saber alguém sempre em (des)construção.

“Tem isso de estar sempre muito conectada ao que a vida dentro de mim me diz e não abrir concessõespara isso. Confiar muito na vida que pulsa dentro de mim, ela é a minha única verdade e garantia, pois posso morrer daqui a um segundo. E perceber que a vida dentro de mim não tem separação da vida fora de mim. Quanto eu me conecto à ela, eu me conecto ao mundo inteiro. Assim, qualquer ação que venha desse lugar é naturalmente uma ação amorosa, do cuidar. Não é sobre o legado que eu deixei para o outro, não é sobre isso. Mas o quanto eu me doei para a vida. O que me faz sentir viva? O que uau, eu poderia estar fazendo mais disso? Nos distanciamos muito desse sentir o pulsar interno, mas o momento de se recolher, inspirar, autoestudar e nutrir é fundamental para que depois a gente possa se expandir. Porque se eu só recebo e não dou, eu não estou sendo fiel à vida. E se eu só dou, sem me permitir acalmar, o meu doar é vazio e repetitivo. Esse de fora para dentro e de dentro para fora é o que o Humberto Maturana chama na sua biologia de autopoiese, é respeitar a vida na sua constante transformação”.

Não é sobre construir alguma coisa

E saber que casa mesmo é onde o coração está.

“Quando abri a Casa Sou.l há quatro anos, achei que aquele era um projeto para sempre e que pra sempre eu faria a curadoria dos cursos de lá. Hoje já não temos casa, seguimos em um formato itinerante, sem o custo fixo de 25 mil mensais e uma equipe de 6 pessoas; eu deixei a curadoria para criar os cursos e empreendo em rede, com ajuda de parceiros sazonais, entendendo que cheguei cheia de certezas, e hoje vivo uma jornada de volta àquilo que é essencial. O que quê é isso que, se eu não fizer, eu não tô viva, sabe? E saber que do jeito que foi, foi perfeito. Só assim eu pude, por exemplo, me encontrar como facilitadora. Entre eu e as pessoas tinha uma casa, e quando ela sai de cena, o projeto vira sobre as pessoas. Quando eu estou na Perestroika, a casa está lá. Quando eu estou na Academia da AHLMA, a casa está aqui”.

“O processo de empreender guarda muitas armadilhas do ego. Muitas vezes, empreende-se para se ser importante, reconhecido, ganhar prêmio, dar palestra. E o que eu tenho compreendido é: não tem problema. Não tem problema se maquiar, se vestir bem, dar palestra. Vivemos em um mundo onde a imagem ainda conta muito, e aí a gente faz o que o Paulo Freire dizia, de falar a língua do outro. O importante é sempre se perguntar de onde isso vem?, eu tô a serviço?. O serviço de alguns de nós, não é de todos, demanda conversar com esse mundo sem se deixar drenar por ele. O meu chamado é ajudar as pessoas a se conectarem com quem elas são e se eu precisar passar rímel, beleza. Eu quero mais é entender o que é necessário para servir, com o cuidado para não perder a verdade”.

É sobre amor.

E ser que se é.

“A gente precisa desapegar para só ir sendo, sem ter que chegar a conclusões. A Ana Thomaz costuma dizer uma coisa que, com a passagem de uma amiga, tem feito cada dia mais sentido: Qual é o objetivo da vida senão aprender sobre si mesmo? Propósito é escolher a felicidade, viver a vida por inteiro, na inteireza do seu ser. E você (também) é amor, cuidado e regeneração. Nós passamos 8 horas por dia trabalhando, mais 8 dormindo, a que horas a gente vai ser feliz e se dedicar a si mesmo? É aí que a gente manifesta o nosso legado. No fundo, no fundo, é muito simples. É poder ser quem você é.

Gostou da entrevista? A Carol, junto do Gab Gomes e do Guilherme Lito, está conosco para facilitar o OHBRA, uma experiência sobre o legado que queremos, com o nosso trabalho, deixar para o mundo. Dias 25, 26 e 27 de agosto, no Leblon. Clique aqui para saber mais e aqui para se inscrever.

[websérie] search.doc episódio 4: sustainability

Chegamos ao último episódio da nossa temporada Havaí. E o nosso season finale é justamente sobre o caminho de volta, o retorno à cidade e a capacidade de se levar junto do corpo aquilo que acreditamos, não importa onde estivermos. Se falamos tanto em sustentabilidade, então a pergunta é: Como sustentar e dar continuidade as lições aprendidas? Consumo consciente, moda com propósito, nutrição e o prazer de cultivar são alguns dos temas de hoje.

Você irá conhecer o então chef de cozinha Dave, que tocado pela morte do ícone David Bowie, passou a se questionar sobre a sua própria autenticidade e a do seu trabalho também; Jolene, uma francesa que tem encontrado nos companheiros de viagem a sua própria família — ou, em havaiano, Ohana, “a família que você escolheu ter”; e finalmente, José Camarano, protagonista desta história, em uma conversa sincera com Barbara Moore sobre a dor e a delícia de se autoconhecer.

Mas esta não é uma despedida. Só um até mais, pois a busca continua.

Mahalo, aloha!, e vamos juntxs.

[lista] EM OHBRA

Carolina Bergier, Gab Gomes e Guilherme Lito, facilitadores do primeiro Curso AHLMA, dividem com a gente algumas das suas melhores referências para se entrar em obra.

Carol Bergier

está facilitadora de processos de Alinhamento Vocacional, empreendedora da Casa Sou.l e investigadora de como nossas relações com a educação e com o trabalho podem construir futuros desejáveis para si, entre nós e no mundo. É formada em design para sustentabilidade pelo Gaia Education, coach e trainee em Pathwork, e professora convidada por escolas livres como a Perestroika, Laje e agora, a Academia da AHLMA.

Livros

1. O caminho da Autotransformação— Eva Pierrakos (dançarina e criadora do método Pathwork), editora Cultrix
2. Propósito — Sri Prem Baba (líder espiritual brasileiro, reconhecido como mestre pela linhagem ancestral Sachcha), editora Sextante.
3. Criando o Trabalho que Você Ama — Rick Jarow (mentor vocacional e pioneiro no movimento anticarreira), editora Mauad.

Filmes

4. Quem Se Importa?— da diretora Mara Mourão.
5. Eu Maior— dos diretores Fernando e Paulo Schultz.
6. Quem somos nós? — dos diretores William Arntz, Betsy Chasse e Mark Vicente.
7. Eu não sou seu guru (disponível no Netflix) — sobre o trabalho do master coach Tony Robbins.
8. Awake (disponível no Netflix) — das diretoras Lisa Leeman e Paola di Florio, sobre a a vida do mestre espiritual Yogananda. 
9. InnSaei (disponível no Netflix) — dos diretores Hrund Gunnsteinsdottir e Kristín Ólafsdóttir.

TEDs

10. O Poder da Vulnerabilidade — Brené Brown
11. Interdependência ou Morte— Ricardo Guimarães
12. Alimentando a Criatividade — Elizabeth Gilbert
13. Como Grandes Líderes Inspiram Ação— Simon Sinek

Destinos

14. Os de dentro
15. Amalaya, São Paulo, para se desconstruir.
16. Ubud, Bali, pra se conectar profundamente.
17. Jerusalém, Israel, pra sentir intensamente.

Organizações, pessoas e movimentos

18. Desescolarização, por Ana Thomaz.
19. Carla Ferro.
20. Pathwork, por Eva Pierrakos. 
21. Comunicação Não-Violenta.
22. Agrofloresta, por Ernst Gotsch. 
23. Krishnamurti.
24. Marie Forleo. 
25. Theta Healing.

Gab Gomes

é formado em Comunicação Social pela PUCRS, é publicitário, empreendedor social e um entusiasta de projetos paralelos. Atualmente, coordena a área de novos projetos na Shoot The Shit, um estúdio criativo de comunicação que cofundou em 2010. Além disso, é professor da Perestroika, palestrante por todo o Brasil (falando sobre temas como economia colaborativa e negócios sociais) e membro da rede Red Bull Amaphiko.

Livros

26. Lateral Thinking — Edward de Bono (escritor e professor de universidades renomadas como Harvard, Oxford e Cambridge).
27. Homo Deus — Yuval Harari (professor de história e autor do best-seller internacional Sapiens), editora Companhia das Letras.
28. Adeus Ao Proletariado — André Gorz (filósofo também conhecido pelo pseudônimo Michel Bosquet), editora Forense Universitari.

Artigos

29. Why Talented Creative People Are Leaving Your Agency, na Creative Review.
30. Understanding New Power, na Harvard Business Review.
31. The Collaboration Paradox: Why Working Together Often Yields Weaker Results, no 99u.

Filmes

32. The Century Of The Self — do diretor Adam Curtis.
33. Hypernormalisation — do diretor Adam Curtis.
34. Terra — dos diretores Yann Arthus-Bertrand e Michael Pitiot.
35. Requiem For A American Dream (disponível no Netflix)— conversas com Noam Chomsky, um dos pensadores mais importantes do mundo.
36. The Mask We Live In (disponível no Netflix) — da diretora Jennifer Siebel Newsom.

TEDs

37. Why you should define your fears, not your goals— Tim Ferris.

Destinos

38. Viaje para dentro.

Organizações, pessoas e movimentos

39. Think Olga
40. Mídia Ninja
41. Cidade para pessoas, por Natália Garcia. 
42. Fluxo, por Bruno Torturra. 
43. Estoicismo.

Guilherme Lito

é ex-músico, ex-engenheiro de produção, ex-nerd de videogames, atual investigador sobre caminhos econômicos e sociais para a criação de presentes desejáveis através de palestras e consultorias. Sócio do Brownie 
do Luiz, negócio carioca que tem o propósito de gerar felicidade através do empreendedorismo consciente. Foi sócio da LUZ Consultoria, hoje LUZ.vc., ex-presidente da EJ da PUC-RJ.

Livros

44. Sapiens — Yuval Harari, editora Companhia das Letras.
45. Reinventing Organizations — Frederic Laloux (coach e facilitador corporativo), editora Diateino.
46. Cradle to Cradle — de Michael Braungart e William McDonough, editora Farrar.

Filmes

47. Demain (disponível no Netflix) — dos diretores Cyril Dion e Mélanie Laurent.
48. Neste chão tudo dá — do diretores Felipe Pasini, Ilana Nina e Monica Soffiatti.
49. A ascensão do dinheiro — do diretor Adrian Pennick.

TEDs

50. Como as grandes marcas podem ajudar a salvar a biodiversidade — Jason Clay.
51. Uma fuga à pobreza — Jacqueline Novogratz.
52. Como será o poder novo— Jeremy Heimans.

Destinos

53. Jardim Gramacho, no Rio de Janeiro. 
54. Genebra, para o Fórum Econômico Mundial. 
55. Ecovilas, como Piracanga, El Nagual e Embercombe.
56. Schumacher College, em Totnes, Reino Unido.

Organizações , pessoas e movimentos

57. Sistema B.
58. Richard Barrett. 
59. Frederic Laloux.
60. Ellen Mac Arthur Foundation.

Gostou da lista? Carol, Gab e Gui estarão conosco para facilitar o OHBRA, uma experiência sobre o legado que queremos, com o nosso trabalho, deixar para o mundo. Dias 25, 26 e 27 de agosto, no Leblon. Clique aqui para saber mais e aqui para se inscrever.

[websérie] search.doc episódio 3: healing

Cura é o tema deste episódio, o tercerio da nossa primeira websérie — co.criada e produzida pelo stylist José Camarano. São muitas as práticas ancestrais que, por uma imensa necessidade, voltam a ser pauta na busca por uma vida de bem-estar e profunda conexão com o todo.

Neste episódio, você irá conhecer a alemã Lisa Burritz — ou Rainbow, seu nome espiritual — xamã e autora de dois livros sobre o contato com golfinhos e baleias como forma de cura; a massoterapeuta Melissa Mytych, que aos 24 anos comprou uma passagem só de ida para o Havaí; além de aproveitar para conhecer um pouco mais da histórias das incríveis Barbara Moore e Amma Sophia Rose.

[história] projeto primário

Inspirados pelo encontro com Eduardo Costa, diretor criativo do Brechó Replay, contamos um pouco mais sobre os bastidores desse projeto de (re)visitação a nós mesmos. Por Fernanda Cintra.

Para aqueles mais próximos do hype, o Brechó Replay não é novidade. Com apenas dois anos de existência — e experiência — a plataforma, que já coleciona 39 mil seguidores no Instagram, se consagrou em tempo recorde como um canal de representatividade e inovação em moda.

Eduardo Costa, diretor criativo e sócio fundador do Brechó, sempre gostou tanto de moda — faculdade que só não cursou por falta de grana — quanto de contar histórias. E a sua, que é também a do seu negócio, começou cedo, aos 10 anos, quando entrou para o conservatório de ballet em Campinas, onde morou por praticamente toda a sua juventude, e depois aos 20, quando deixou a companhia onde dançava para fazer um curso de cabelo. Pois o universo da beleza ainda se aproximava, de muitas formas, do da moda.

Cresceu como cabeleireiro “bapho” em salões chiques-de-madame, mas só até perceber que aquele padrão estético, das meninas loiras e ricas, não era o seu. Assim, em busca de uma linguagem mais próxima da sua própria narrativa, passou a trabalhar com cabelos crespos, cacheados, e tratamentos mais naturais, dentro dos parâmetros de low e no poo. Em paralelo, junto com a mudança definitiva para São Paulo, adquiriu o hábito de comprar em brechós por motivos de “peças únicas”, “onda hipster-vintage” ou “pira étnica”. E desse jeito, entrou para a moda, enxergando ao lado de um ex-sócio, a oportunidade de montar um brechó.

Para início de conversa,

desejavam falar sobre a própria infância, entre outras histórias pessoais. Clicavam um ao outro, iam para rua, criando imagens sem requinte, maquiagem, em uma dinâmica tão livre quanto espontânea. Com o tempo — e a preocupação com beleza e fotografia — o “set” foi ficando cada vez mais cheio, sempre de amigos. Perceberam que poderiam incluir outras narrativas, e inspirados pelo boom dos influenciadores digitais, começaram a convidar pessoas que, apesar de não serem modelos, eram lindas e super interessantes aos olhos do Brechó.

Segue o baile

Com a saída do (ex-)sócio, Edu passou a trabalhar “sozinho” na direção do Replay. Digo sozinho com muitas aspas, pois a essa altura o Brechó já havia se desenvolvido para além de uma marca, e já contava com, por exemplo, um produtor — o Ricardo Boni — na equipe. Começavam a ser procurados por artistas, como Mc Linn da Quebrada e Mc Soffia, para jobs de styling e produção de video clipes. E Edu, a cada dia mais íntimo da conceituação e direção criativa dos ensaios, sentia o desejo de retratar toda uma cena, feita por pessoas que iam, vinham e intervinham na cidade — muito mais do que looks ou tendências. Pessoas que geralmente estavam à margem. E consequentemente, à frente de movimentos negros, sociais, feministas, LGBTs e mais.

2017 trouxe planejamento, profissionalismo e parcerias com marcas maiores como Natura, Nike, Adidas, e agora, a AHLMA. As mudanças estruturais, que Edu vê com nitidez a partir do ensaio Mundo Negro, trouxeram conceito, organização, e o entendimento de que poderiam novamente desconstruir o “produto” que o Brechó oferece por meio de ensaios performance que conseguissem dar voz e movimento às pessoas vestidas de Brechó Replay — sem perder a deliciosa vontade de sair juntando um monte de roupa com um monte de gente para criar o novo.

Reciprocidade

é palavra-chave. Edu conta que a inspiração vem daqueles que estão muito próximos, como a própria Linn da Quebrada, bicha transviada que lhe ensinou um tanto sobre (des)construção; meninas maravilhosas como Camila de Alexandre, Amanda Schön e Renata Brazil com suas militâncias feministas, além do próprio Boni, do @jiromba1. Outra grande influência é a festa de empoderamento negro Batekoo, onde se sente uma pessoa normal, que não precisa provar nada para ninguém, e a tal da reciprocidade acontece na forma de afeto, carinho sexual e troca de energia.

No trabalho, idem. Para fortalecer as relações de trabalho, Edu aposta na horizontalidade do seu negócio, ainda que em meio a um mundo essencialmente vertical. Toda a equipe se envolve, de alguma forma, com o processo criativo que permeia a plataforma. Já os garimpos acontecem conforme o mood do momento — que no caso do Projeto Primário, ganhou o perfume dos anos 60 — e vai a lugares mais distantes da capital, em busca de peças mais baratas cujo valor acessível faça sentido para todxs. Um negócio feito por pessoas e para pessoas.

O Projeto Primário,

por sua vez, me parece um desdobramento natural de se trabalhar a partir das tantas narrativas de luta e empoderamento pessoal que movimentam o Brechó. Nasceu da experiência do próprio Edu de perceber fragilidades que, na sua cabeça, já deveriam ter sido superadas. Conversando com amigos sobre o assunto, entendeu que à sua volta orbitavam muitas outras histórias de bullying, machismo, dolorosas quebras de padrão, sexualidade, aceitação da cor e marginalidade. Edu jamais usou essa palavra, mas eu diria que o Projeto Primário é a expressão visual de um profundo processo de autoconhecimento que o levou a lugares difíceis, como o medo da solidão. Mas a (re)visitação desses lugares, por outro lado, liberta. E questiona o que teria acontecido se cada uma dessas pessoas pudesse ter acessado certos benefícios que, por estarem resolvendo problemas maiores, decorrentes da própria exclusão, deixaram de acessar. A proposta, agora, é experimentar a vida, em vez de formar a vida.

O primeiro ensaio colava formas geométricas no corpo dos modelos, correlacionando cores e formas primárias aos limites morais que norteiam a nossa sexualidade e a ideia de que está errado se sentir atraído por um outro corpo parecido com o seu. Depois, chegou a vez das meninas protagonizarem em azul-vermelho-e-amarelo, texto e imagem, a experiência de ser mulher.

E o próximo desdobramento do Primário acontece amanhã, dia 12 de agosto, durante o evento de aniversário da Malha, em uma parceria AHLMA + Brechó Replay. Será montada uma grande sala de aula, ocupada por pessoas vindas de diferentes locais de fala — e intersecções entre Rio e São Paulo — , que servirá de palco para uma mescla de festa, desfile, instalação e performance, cujo resultado só iremos entender quando acabar e puder ser revisitado. O happening é aberto ao público e acontece a partir das 18h no galpão da Rua General Bruce 274, em São Cristóvão. Vamos juntxs?

[podcast] Rodrigo Santanna

Criador da plataforma cultural MECA, Rodrigo conta como é romper padrões e criar novas experiências e modelos de negócio no universo cultural

apresentação André Carvalhal
produção Alexandre Potascheff

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OVNE Encontra: Rodrigo Santanna
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[podcast] Flavia Aranha

Referências no Brasil quando o assunto é moda sustentável, a estilista nos conta como devemos nos relacionar com este mercado daqui para frente

apresentação André Carvalhal
produção Alexandre Potascheff

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[podcast] Felipe Morozini

O multiartista paulistano num bate papo com André Carvalhal sobre como a cidade lhe inspira a criar e seu novo programa no Youtube, o FM TV

apresentação André Carvalhal
produção Alexandre Potascheff

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OVNE Encontra: Felipe Morozini
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Youtube

[podcast] Eugenio Mussak

O professor, médico e escritor é especialista em gente. E aqui ele nos revela que para modificarmos a realidade ao nosso redor, primeiro devemos mudar a maneira como vemos e interpretamos o nosso entorno

apresentação André Carvalhal
produção Alexandre Potascheff

Youtube

[entrevista] Triz

Nem rapper, nem Mc, nem homem, nem mulher. Conheça Triz, a pessoa por trás da canção. Por Fernanda Cintra.

Se você não é uma das mais de 1.500.000 — sim, um milhão e quinhentas mil — pessoas que assistiram ao clipe de “Elevação Mental”, desde que foi lançado, há pouco mais de uma semana: assista. De cabeça e coração abertos, como Triz, a pessoa por trás da canção, gosta de recomendar.

Triz tem apenas 18 anos, 11 deles de intimidade com a música. E apesar da recente descoberta da sua identidade de gênero, tão recente quanto a sua relação com o rap, é comumente “rotulada” como Mc militante do movimento LGBT. Essa luta — que diariamente briga para que o Brasil deixe de ser o país que mais mata travestis e transexuais no mundo — é a sua, legítima; porém, entre outras tantas lutas, sentimentos, vivências e desejos que compõe o seu ser.

Aê motô, boa noite pro senhor

Triz é “natural” da zona sul paulista, ali perto de Diadema, uma realidade um tanto diferente da que está começando a viver. A família do pai, muito envolvida com música, foi o primeiro passo da sua jovem carreira artística, de forma que aos 7 anos já se apresentava na igreja Assembléia de Deus, e aos 8, já compunha as suas “primeiras musiquinhas”, do alto da garagem de casa. Por volta dos 13, se matriculou com a ajuda da avó em uma escola de música para aprender canto e violão, curso que, por falta de grana, quase largou um ano depois. Ganhou uma bolsa, seguiu por mais dois anos. Aos 15 se apaixonou pelo reggae, começou a costurar o cabelão em dreads e a fazer pequenos vídeos para a internet — que acabaram compartilhados por páginas importantes, como a rádio Som Jah, e mais tarde, a Rap Nacional.

Poesia visionária que atinge o coração

Foi por meio do sucesso desses vídeos que Triz também conheceu Cesar Gananian, diretor e produtor executivo do clipe de “Elevação Mental”, além de outros parceiros profissionais (e amigos queridos) como o diretor e produtor musical Pedro Santiago; Davi Valente e Camila Picolo, responsáveis pela fotografia do vídeo; e o músico André Whoong, do selo Rosa Flamingo — liderado pela Tiê. O ambiente de trabalho leve e amoroso faz com que Triz, que até pouco tempo nunca havia visto uma câmera de verdade tão de perto, já não consiga se imaginar trabalhando em uma loja ou cursando uma faculdade. Acredita apaixonadamente na própria arte, e no poder de transfor(a)mar da música que faz com a ajuda de outras tantas pessoas maravilhosas.

Eu acho que é mulher, eu acho que é homem, eu acho que você tem que vestir esse uniforme

Falar sobre identidade de gênero, certamente, já se tornou uma constante na vida de Triz. Em um vídeo recente na sua página do facebook, explica por 20 minutos alguns dos pontos mais importantes sobre o assunto, como a diferença entre o que rola na mente e no corpo de uma pessoa não-binária. “Gênero é como você se sente, se expressa, se enxerga, de dentro para fora. Se você tem seios, pênis, vagina, nada disso tem a ver com gênero. Biologia é carcaça, você passa o bisturi e modifica. Mas a sua cabeça ninguém pode modificar”. E continua: “nos moldes da sociedade, a minha mente não se encaixava com os padrões femininos, tampouco com os masculinos. Até que eu descobri esse termo, essa condição, essa causa que é a não-binariedade de gênero”. Nem masculino, nem feminino, Triz é uma pessoa não-binária de gênero neutro. “Uma mistura de tudo ou um resultado de nada”.

Mas, e os pronomes de tratamento? “As pessoas perguntam muito, eu tô até dando umas palestras (risos). A questão dos pronomes varia de pessoa para pessoa. Eu, por exemplo, me sinto muito mal com o A, mas não me sinto um cara, então o O não me contempla. É de certa forma um impasse muito presente na língua portuguesa, mas é também pra isso que existe a linguagem neutra, que é só trocar o O ou o A pelo E. Como em linde ou ansiose. Na forma escrita, sempre procure usar o E, e nos casos de Ele/ela, substitua por ilo, ile ou palavras como a pessoa”.

Foda-se se te incomoda, é o meu corpo, a minha história

Liberdade e segurança para falar sobre o assunto, no entanto, não vieram gratuitamente. Foram anos de depressão, episódios de síndrome do pânico, se escondendo por trás das roupas que lhe causassem o menor desconforto possível com o próprio corpo. Não ia com meninos, nem meninas, sempre muito sozinha. “Nunca me reconheci enquanto mina e a palavra mulher sempre me gerou muito estranhamento. Tenho essa memória de desde muito nova me sentir terrível quando me chamavam de menina e desviar a conversa dizendo que eu era criança. Eu era eu. Também sempre tive pavor de vestir calça jeans, daquelas que marcam bem o corpo. Eu me sentia muito mal e tinha até taquicardia toda vez que precisava andar na rua”.

Foi só de uns três anos pra cá que as coisas passaram a, pela primeira vez, se encaixar. Por volta dos 15 anos, começou a se relacionar virtualmente com uma menina que usava roupas masculinas, e sentiu atraída por seguir a mesma onda. Comprou cueca, shorts e uma regata. “Quando cheguei em casa e me vesti, chorei. Então disse pra minha mãe que ia ser isso, doei minhas roupas femininas, ganhei outras masculinas de vizinhos e familiares, e reformei meu guarda-roupa só com as coisas que eu queria”.

Você não precisa entender, só precisa ter respeito

Mas Triz ainda não estava feliz enquanto “mulher bofinho lésbica”, como ile mesme diz. Não lhe cabia. Então foi estudar, pesquisar, e encontrou a Hugo Nask, hoje sua amiga, e pessoa não-binária que com um canal no youtube, contribui para um entendimento mais profundo das questões de gênero, dentro e fora da comunidade LGBT. De repente, se viu militante, motivada a compor e cantar sobre os terríveis episódios de agressão contra travestis e pessoas trans. “Tive a sorte de nunca ter sofrido nenhuma violência, de ter uma família que me aceita e respeita. Mas estudar e me engajar no assunto foi essencial para que ninguém jamais me humilhasse ou montasse em cima de mim. Tenho bastante respeito na quebrada, e depois da repercussão do clipe, muita esperança nas pessoas. Se você não sabe como é esse rolê todo eu quero estar aqui para poder te pegar mão e explicar”.

Onde isso vai parar? / Se eu nasci com dom eu sei que eu vou continuar / Eu cheguei na cena / fiz um poema / pro seu coração escutar

Apesar da felicidade de ver “Elevação Mental” — que tem beijo gay, travestis, trans e até a sua própria figura — atingir (e afetar) tantas pessoas, dentro de uma taxa baixíssima de dislikes, mas muitas mensagens de amor, Triz pede que não e coloquem dentro de uma nova caixa. Pois ainda deseja compor sambas, MPB e até carimbó, sempre fluindo entre gêneros musicais. Pois também escreve sobre os seus próprios conflitos, medos, revoltas, sobre as pessoas que todos os dias passam fome na rua, sobre os bailes soundsystem que frequenta aos fins de semana. Sobre amor.

O preconceito não te leva a nada / não seja mais um babaca de mente fechada / Porque o ódio mata / só o amor sara / De qual lado você vai ficar?

“Quando as pessoas me perguntam como eu consegui tão rápido, quando tem tanta gente aí tentando há 20 anos, eu digo que é todo esse amor que eu sinto por mim. É esse amor que me fez e faz ter tanta sorte. Depois que eu descobri meu gênero e soube que era bom não ser igual a maioria das pessoas, eu me tornei alguém muito orgulhose de si mesme. Essa confiança me dá vontade de fazer história, de ‘Vamo? Vamo’. Eu quero ter inspiração, fazer história, deixar fluir sem fazer muitos planos, e ter fé na minha arte”.

E fé nas próximas gerações, você tem?, eu pergunto. Triz responde “As novas gerações estão incríveis, as crianças estão cada vez mais inteligentes e entendem perfeitamente essa quebra de papéis. Eu acredito na evolução e essa abertura de mente e coração para mim está constatada em números, no meu clipe. Se essa mensagem não fosse real, não teria alcançado tantas pessoas. Nós só precisamos dessa abertura para a compreender a vivência do outro, nos respeitar e viver numa boa”.

Triz avisa que os shows maiores estão marcados a partir de novembro. 
Até lá, fará shows menores e participações, como no dia 17, quando sobe 
no palco para cantar com a Tiê em uma apresentação no Rio de Janeiro. 
Você pode acompanhar a sua agenda pelas suas redes sociais.

[websérie] search.doc episódio 2: connection

Chegamos ao segundo episódio da nossa websérie, agora sobre conexões. Você vai conhecer histórias de amor e vínculo entre casais, amigos, relacionamentos à distância, poliafetivos, e ainda mais importante, de conexões profundas com a natureza. O vulcão Kilauea e a sua deusa particular, Pele, são personagens principais, junto com a montanha Mauna Kea — o melhor ponto do mundo para a observação do céu, com direito a telescópios de 11 países — e os famosos golfinhos, animados para nadar e brincar ao lado dos seres humanos.

Neste episódio, Spencer e Grace, um jovem casal que acabou de sair da casa dos pais, começa a conhecer o mundo pelo Havaí; Evan Shier, cantor nova iorquino, fala sobre os desafios de se estar sozinho e ao mesmo tempo dentro de um relacionamento poliafetivo; e a canadense Caroline mostra como é ser uma escritora em busca do sentido da vida. Aloha e vamos juntxs.

[websérie] episódio 1: awakening

Neste primeiro episódio, José Camarano apresenta a comunidade onde viveu por quatro meses ao lado de mais 15 voluntários — o Dragonfly Ranch. Você também vai conhecer Barbara, fundadora deste healing arts center; Logan, um estudante de biologia que, ao se (re)conectar com a natureza, curou a sua depressão; e Amma Sophia Rose, uma xamã nativa americana que dedica a vida ao tema deste episódio: o despertar.

ps: Não se esqueça de selecionar a opção legenda em português — para isso vá em detalhes, no lado direito do rodapé do vídeo.

[entrevista] José Camarano

Às vésperas do lançamento da nossa primeira websérie, entrevistamos o personagem principal desta jornada em busca de autoconhecimento, vida simples e (re)conexão profunda com a natureza.

Por Fernanda Cintra

José Camarano é stylist carioca e produtor de algumas das festas mais queridas dos meus primeiros anos de faculdade. Foi consultor da Ausländer para desfiles, campanhas e festas do início ao fim da marca, e concorreu a prêmios como o Young Fashion Entrepreneur, do British Council, com a adorável Gema TV — clique aqui para matar as saudades da entrevistadora de maiô — projeto do qual foi fundador. Há 6 anos, no entanto, e apesar de todo o sucesso profissional, despontou a vontade de desacelerar: “A coisa foi ficando maior do que eu poderia gerir psicologicamente. Eu não tinha tempo para nada, e a minha vida pessoal ficava cada vez mais embolada com a profissional. Minhas viagens de férias eram viagens de pesquisa, de forma que há muito tempo eu não me desconectava”.

O processo, que começou com pequenas mudanças de rotina e alimentação, culminou no ano passado, quando, após uma temporada de três anos em Nova York, Camarano decidiu guardar todas as suas coisas em um storage, e acompanhado de apenas uma mala, partir para uma viagem de quatro meses no Havaí.

De Minas sim, mas sem puxar o S

Quem o conhece superficialmente mal pode imaginar, mas José Camarano é mineiro, nascido na interiorana Ubá, em 1979 — ano do qual gosta muito. Mas foi só aos 17, ao final da década de 90, que chegou ao Rio, para trabalhar no Mercado Mundo Mix. Vendia peças excedentes da extinta camisaria do seu pai por conta de um revival do estilo setentista na moda. Foi também nessa época que começou a tocar como dj e a estudar publicidade (curso que, mais tarde, decidiu abandonar). Aos 20, era stylist. E o Rio, a sua casa. “Foi tudo muito rápido. Desde então, nunca mais parei”.

O primeiro youtuber

A internet vivia o seu grande boom quando Camarano decidiu criar o Gema, lá em 2007. As pessoas começavam a gravar vídeos caseiros, e o portal mandava “mala direta”, em vez de newsletter. Todas as possibilidades que a tecnologia lhe oferecia — incluindo o novos lançamentos da Apple — faziam dele um homem hiper conectado, apaixonado pela web. Mas com a chegada de outras redes e o hábito de ler notícias online, José, que é atento aos comportamentos emergentes, logo percebeu que havia alguma coisa errada. “Tudo está ficando cada vez mais leve. A comida, o celular. Hoje em dia tudo vai pra nuvem, e a nossa cabeça também — está cada vez mais leve e menos profunda. Quando as selfies começaram a surgir, eu fiquei apavorado. Vi ‘nascer’ uma geração de pessoas altamente vaidosas e a internet se tornar um reality show freak da vida alheia, onde todo mundo parece gritar ‘Look at me! Look at me!”. O excesso de conexão se transformou em ressaca digital, e em 2013, Camarano decidiu deixar a noite e o audiovisual para se dedicar quase que exclusivamente à moda, inaugurando uma outra fase profissional, em Nova York.

O Havaí seja aqui tudo o que sonhares

E foi lá na gringa que rolou o segundo clique: Camarano não sabia aonde gostaria de estar. Não queria voltar para o Brasil, tampouco continuar em NY. “Então comecei a buscar dentro dos meus pensamentos qual era o meu maior desejo. O que eu sempre quis fazer, mas por falta de tempo ou coragem, eu nunca tinha feito?”. Percebeu que havia adquirido o hábito de, toda sexta-feira, pegar o trem para fugir da cidade. Passava o fim de semana na praia, na montanha, e voltava energizado. Até que nasceu a vontade de dar de volta, de cuidar da natureza e se (re)conectar com ela de forma ainda mais profunda.

Com a ajuda do universo — afinal, não há nada mais poderoso do que intencionar o que se deseja — descobriu o WWOOF, uma rede mundial de fazendas orgânicas que recebe viajantes dispostos a trabalhar “na roça”, oferecendo em troca conhecimento, hospedagem e alimentação. A princípio, José procurava por alguma coisa na Califórnia, mas ao puxar o mapa, trouxe para o meio da tela o Havaí. Seu coração disparou e decidiu, seguindo os sinais, enviar uma mensagem para uma amiga de escola, com quem não falava há mais de 20 anos, mas que morava em Honolulu. A resposta veio em um minuto. Mandou para ela uma lista com as fazendas das quais mais tinha gostado e juntos, chegaram a conclusão de que deveria entrar em contato com o Dragonfly Ranch, um healing art center com cinco quartos para hóspedes, casa comunitária para voluntários e espaços para a prática de yoga e permacultura, na Big Island.

Sincronicidades

Camarano explica que a região — onde Dragonfly Ranch está — é conhecida como 19.5 degrees, um dos portais de saída de energia da Terra, o que lhe pareceu muito auspicioso. Imagine duas pirâmides invertidas, encaixadas no centro da esfera terrestre: cada uma das pontas dessa forma configura 19.5 graus, onde, em todos os planetas, estão as grandes montanhas e vulcões. Ou, como no nosso caso, as pirâmides do Egito.

Ah, uma curiosidade: reza a lenda que a humanidade vem se desenvolvendo da direita para a esquerda do globo, em uma lógica que começa na ancestralidade do oriente, passa pelo desenvolvimento europeu, a descoberta das Américas, e hoje está na Califórnia, junto com o Vale do Silício. Nessa lógica, diz-se que a próxima “meca” é o Havaí, com a sua sabedoria e estilo de vida em harmonia com o todo.

Outra “coincidência”, foi a fazenda trabalhar com permacultura, tipo de cultivo na qual já estava interessado e que mimetiza a natureza: “Você planta sementes amigas, que se dão bem debaixo da terra, para nutrir o solo. E junto, planta flores para que as abelhas e insetos deixem os alimentos em paz, como acontece nas florestas”.

Vida antiga

Já na viagem de ida, Camarano percebeu que o seu desejo por uma vida slow começava a se tornar realidade. “Escolhi seguir para a Califórnia de trem, em uma viagem de quatro dias, de Nova York a São Francisco. Tipo vida antiga mesmo; inclusive, uma pessoa teve um ataque cardíaco dentro do trem, que precisou parar e ter passageiros interrogados pela polícia”.

O cenário Agatha Christie, pelo menos, ficou com a última estação de trem. A Big Island tem cerca de 180 mil habitantes e baixíssimos índices de criminalidade. Por outro lado, Camarano não sabia, mas levava na mala alguns medos do Brasil: “Lá, a minha casinha ficava aberta 24 horas, não tinha tranca, nem maçaneta. Meu carro, uma charanga que comprei por 800 doláres, também não tinha chave, e nem precisava. A primeira semana foi estranha, a floresta parece uma rave a noite: é barulho de sapo, grilo, porco selvagem, você mal dorme. A minha primeira pergunta foi se não tinha risco de assalto. É óbvio que não (risos)”.

Paz de espírito

Em pouco tempo, José baixava o banco do carro e dormia em qualquer lugar, até mesmo na natureza, já que no Havaí não existem animais peçonhentos ou perigosos para o ser humano. Estava cada vez mais próximo dos golfinhos, que dormiam e vivam a 5 minutos de carro do Dragonfly Ranch — outra característica das regiões 19.5 degrees. “Eu ia, em média, umas três vezes por semana, até porque chegou um momento em que eu mesmo levava os turistas para conhecê-los. Criamos uma conexão, eu mentalizava e os golfinhos vinham”.

Para a cultura havaiana, os golfinhos são animais especialíssimos, com capacidade de cura. Também há toda uma tradição em florais, cerimônias xamânicas, cultivo de plantas alucinógenas e meditação — o Ho’oponopono. É lá que habita, aliás, o Botanical Dimensions, uma mescla de jardim botânico e organização sem fins lucrativos criada pelo filósofo e etnobotânico Terence McKenna, cujo objetivo é preservar plantas de tradição xamânica (como ervas, cipós, cogumelos, etc). Envolver-se espiritualmente parecia inevitável. Entre a prática de rituais e meditação diária, às quatro da manhã, recebeu insights de uma vida toda e pôde soltar muito do que ainda lhe prendia. “Descobri que a raiz do meu sofrimento era o apego de não soltar o que precisava ir. Eu tinha medo de não trabalhar tanto, de não ter uma agenda agitada, e por conta disso, não me sentir bem sucedido. Agora, sucesso pra mim é bem estar, tranquilidade, qualidade de vida”.

Levo a vida tranquilo

Depois de 20 anos tentando, Camarano parou de fumar. Guarda o último maço até hoje, o que me parece um souvenir da descoberta de que a capacidade de discernir, sem simplesmente reagir aos estímulos externos, se adquire em um movimento de dentro para fora, e não de fora para dentro. Ele concorda: “Sabe aquela coisa de quando se está pronto, o professor aparece? Quando a gente se abre para a transformação, o clima muda, passamos a atrair coisas diferentes, e as pessoas certas aparecem para ajudar”.

Ainda sobre pessoas, ele também tinha medo da solidão. “Sempre tive muita gente perto de mim. Ainda amo meus amigos, mas perdi a conexão com a vida na noite descobrindo outras, novas, que hoje me preenchem ainda mais. É doído mudar, aceitar uma nova fase. E até você chegar do outro lado, você fica numa espécie de limbo, sem saber se vai para frente ou para trás. Mas é sempre para frente, na vida não existe andar para trás”. Quando chegou no Havaí, o desejo era mesmo esse, de recomeçar. Reconhece o privilégio que é poder “largar tudo” e viajar, mas entende que, mais importante do que a viagem, é que cada um consiga ter tempo para si, para olhar a própria vida com um pouco de distância e se (re)energizar.

Altas ondas

Uma prancha branca, bem simples, ocupa com status de obra de arte uma das paredes da sua sala. Eu pergunto se o surf veio com o pacote Havaí: “Eu já gostava de esportes radiciais, como paraquedismo ou asa-delta, mas aprendi a surfar em Waikiki, onde o surf nasceu, com três dias de ondas pequenas. Depois, um amigo surfista profissional me levou para o North Shore, onde tive aulas de como sobreviver no mar e fugir das ondas grandes. Assim que voltei para o Rio, comprei uma prancha e comecei a frequentar o Arpoador. Foi um outro ensinamento. O mar me fez entender que o propósito não está no fim, mas na jornada. Muitas vezes você fica horas sem pegar onda nenhuma, tentando ou só esperando, e nem por isso volta frustrado pra casa”.

De volta à moda

Estamos no fim da nossa conversa, o que me faz ter vontade de voltar a superfície. Ele conta que por um lado, nunca teve uma visão superficial da moda, muito embora seja esteta e trabalhe com imagem. Mas a moda, para ele, sempre foi mais sobre cultura e comportamento do que sobre a roupa, puramente. Moda é abrir a cabeça. Olhar para frente. “O que se renovou pra mim foi a percepção de que a beleza interior se revela no exterior. E o discurso que a moda oferece é mais importante do que como ela se manifesta visualmente”. Dessa forma, gosta de trabalhar com marcas nas quais acredita. Faz trabalhos regulares, imerso no universo infantil, para Fábula e Versace Kids, styling para a Handred, e agora, uma websérie para a AHLMA. Considera essa a melhor fase da sua vida.

Mas, como é o guarda-roupa de quem vive no presente? “Meu estilo mudou muito, hoje sou praticamente um minimalista. Aconteceu uma coisa: as roupas pararam de falar comigo (risos). Eu entrava numa loja e elas diziam me leva, ainda que eu comprasse sobretudo em pequenos ateliês e com amigos estilistas. Comprar é uma maravilha, mas o que comprar? Hoje eu não tenho mais a urgência de comprar nada. Esse ciclo vicioso de precisar de novidade mata, as pessoas morrem por dentro. A gente fica louco correndo atrás da próxima coisa e deixa de viver o presente. Hoje eu vivo com uma mala, que é a mesma com a qual eu fui e voltei do Havaí”.

Uma mala de poucas peças, todas lisas. “Eu era muito estampado, neon, bem montado nos looks de street wear. Encarnava personagens diferentes de acordo com a festa que fazia. Mas com o passar do tempo fui me ‘limpando’, e hoje aparento muito mais o centro do que a esfera. Descobri que consigo viver sem muitas coisas. E honestamente, eu adoro não ter mais que escolher roupa (risos)”.

Search

José Camarano se parece com alguém que encontrou o que tanto procurava. Foi só no Dragonfly Ranch que a ideia de um mini doc nasceu, com a ajuda de uma Canon nada demais, uma GoPro vencida num bingo local, e a vontade de dividir os amigos e aprendizados que conquistou. Rafaela Leite, amiga e pesquisadora, colaborou com a conceituação do projeto, e a roteirizar as perguntas que guiam os episódios sobre ecologia, espiritualidade, autoconhecimento, liderança circular, entre outros tantos assuntos. O resultado dessa viagem, que vai do coração de um mineiroca até um arquipélago no Pacífico, você confere aqui no O.V.N.E., ao longo das próximas quatro semanas. Aloha, e vamos juntxs.

[história] wabi sabi: a arte e a beleza da imperfeição

História original publicada no Review Slow Living, por Bruna Miranda

“Wabi Sabi é a beleza das coisas imperfeitas, impermanentes e incompletas. 
É a beleza das coisas modestas. É a beleza das coisas não convencionais”.

Olhar para o dia a dia, para o lugar comum, e encontrar mágica no corriqueiro — um lembrete de que nada na vida é perfeito. Encorajar uma maneira intuitiva de ver que envolve se tornar consciente de quais são os momentos que tornam a vida rica e prestar atenção aos simples prazeres que são, facilmente, ofuscados pelo caos e excessos de nossa sociedade.

Você já deve ter ouvido falar do wabi sabi, uma visão de mundo inspiradora que se refere a um conceito japonês baseado na aceitação da transitoriedade. Abrangente e compreensivo, tem como origem o Zen Budismo e sua primeira nobre verdade: Dukkha, ou, em japonês, Mujyou — impermanência. O conceito surgiu nas cerimônias do chá (Chanoyu) onde o menos significa mais.

“Dê boas-vindas à imperfeição. A vida é passageira e transitória”.

Essa filosofia — e também a sua estética — se casa com muita harmonia ao slow living: ao focarmos nossas atenções e atitudes em valores mais reais e significativos, nos conectamos ao wabi sabi, que cultiva tudo que é autêntico ao reconhecer três realidades simples: nada dura, nada é completo: nada é perfeito.

Ainda sobre o slow living e os conceitos que se relacionam com ele, o Japão e a cultura oriental, em muitos aspectos, são fontes incríveis de inspiração. Podemos notar a essência do wabi sabi em várias artes japonesas como o Ikebana — arranjos florais, os jardins zen japoneses, o bonsai, a cerâmica japonesa e a já falada cerimônia do chá. De acordo com Leonard Koren, autor do livro Wabi-Sabi: for Artists, Designers, Poets & Philosophers, o wabi sabi é a mais notável característica que abrange o que pensamos sobre a beleza tradicional japonesa e ela ocupa por lá, por exemplo, a mesma posição de valores estéticos que acontece no ocidente através dos ideais gregos de beleza e perfeição. Ele analisa também que “A grandeza existe no imperceptível e nos detalhes negligenciados. Wabi sabi representa o exato oposto da beleza percebida como algo monumental, espetacular e duradouro. Ele é sobre o secundário, o escondido, a tentativa e o transitório, coisas tão sutis e instáveis que são invisíveis aos olhos medíocres”.

O conceito segue uma estética de simplicidade e valores conectados à natureza que se revelam somente quando conseguimos desapegar, mesmo que aos poucos, dos valores distorcidos que o mundo acelerado, consumista e competitivo nos impôs, sempre nos pressionando para a perfeição, para o ter para ser e para a juventude a qualquer preço. Reside nos detalhes discretos e esquecidos e é preciso ter humildade, sensibilidade e compreensão para captá-lo.

A essência do wabi sabi é que a beleza real, venha ela de um objeto, da arquitetura ou de uma arte visual, não se revela até que o caminhar do tempo tenha acontecido. Um metal enferrujado, por exemplo, tem uma essência que falta em um material novo e polido. A beleza está nos arranhões, nas áreas desgastadas e nas linhas imperfeitas.

A filosofia do wabi sabi abrange tanto as coisas naturais, orgânicas, quanto os objetos feitos pelo homem. Da espiritualidade até as questões de comportamento, hábitos de vida e estética. Se um objeto ou expressão consegue trazer em nós um senso de melancolia serena, intimidade e um anseio espiritual, então isso pode ser considerado wabi sabi. Grande parte de sua essência vem de qualidades intangíveis que giram fortemente em torno de uma experiência. Talvez seja resultado de suas origens e da língua japonesa, que descreve as experiências sensoriais metaforicamente como se fossem poesia, uma linguagem que comunica as emoções do coração com a clareza de sua imprecisão.

A ideia dessa filosofia também fala em aceitar como é o que não pode ser mudado. Diferentemente dos ideais ocidentais que focam basicamente no progresso e no crescimento como componentes imprescindíveis para a vida diária. A natureza fundamental do wabi sabi é sobre o processo, não o produto final; sobre o declínio e o envelhecer, não o crescimento. Esse conceito pede a arte da lentidão, do desacelerar, e uma boa vontade em se concentrar no que é geralmente deixado de lado: as imperfeições e as marcas que registram a passagem do tempo. Um antídoto perfeito para o estilo corporativo de beleza, que é invasivo, raso e escorregadio.

Wabi sabi é otimista. É ver beleza onde pessoas menos criativas enxergam defeitos. A experiência de wabi sabi exerce uma busca pela beleza onde já não se torna suficiente só olhar, é preciso ter o tempo para ver. Não se deixe usar a palavra beleza com pressa, porque há uma importante auto-jornada para encontrar e apreciar o que está mais escondido. Isso promove as virtudes de sermos pacientes.

Dentro da imperfeição abordada pelo wabi sabi, entram ainda a assimetria, a irregularidade e a modéstia como atributos de beleza. Uma simplicidade funcional onde a forma é ditada pela função e reduzida à sua disposição mais simples. E dá pra falar ainda mais: wabi sabi é apreciar os ciclos naturais da vida.

O termo não possui uma tradução concreta em português ou em qualquer outra língua no mundo. Em uma tradução livre, podemos dizer que wabi é a simplicidade rústica, uma elegância discreta, frescor e quietude. Pode também se referir a acidentes ocorridos no processo de construção que conferem singularidades ao objeto. Sabi é a beleza ou serenidade que vem com o tempo, quando a vida do objeto e sua impermanência são evidenciados pelo desgaste ou por qualquer conserto visível, as rugas do tempo, objetos irregulares e despretensiosos. Uma beleza escondida bem na frente dos nossos olhos. É conseguir ver essa beleza em tudo, até nas coisas mais insignificantes da vida, mesmo que estejam repletas de falhas e rachaduras.

Sabi é uma palavra originada na poesia japonesa. Ela expressa o sentimento que temos no outono quando os pássaros migram e as folhas estão caindo. É uma espécie de anseio por sombra que é percebido pelas cores suaves e o aroma de terra de uma floresta que se prepara para o inverno.

Quando os japoneses reparam objetos quebrados, eles enaltecem a área danificada preenchendo as fissuras com ouro. Eles acreditam que, quando algo sofre um dano e tem uma história, torna-se mais bonito. Essa arte tradicional japonesa de reparação da cerâmica quebrada com um adesivo forte e o spray imediatamente após a cola, com pó de ouro, chama-se Kintsugi. O resultado é que as cerâmicas não são apenas reparadas mas tornam-se ainda mais fortes do que seu estado original. Ao invés de tentar esconder as falhas e fissuras, elas são acentuadas e celebradas como as que se tornaram, agora, as partes mais fortes da peça. Kintsukuroi é o termo japonês para a arte de reparar com laca de ouro ou prata, o que significa que o objeto é mais bonito por ter sido quebrado.

Como é importante também entender que os vínculos fissurados ou quebrados dos nossos corações podem ser reparados com amor e se tornarem, assim, mais fortes. A idéia é que quando algo valioso se quebra, um bom caminho a seguir é não esconder a sua fragilidade e nem sua imperfeição, mas sim repará-lo com algo que toma o lugar do ouro, como o vigor, a virtude… Isso mostra as imperfeições e fragilidades mas é também uma prova de resiliência: a capacidade de recuperar-se, algo digno de muita consideração.

Voltando ao wabi sabi, em termos mais coloquiais, ele é o pacote completo do inevitável: admite o defeito e revela a história, o desgaste e o sofrimento. Tipo quando você pendura uma foto no seu banheiro e o vapor faz suas pontas curvarem, isso é wabi sabi. Quando a pintura da porta descasca, uma aranha faz uma teia no canto da sua garagem ou a xícara de chá de sua vó ganha rachaduras que parecem fios de cabelo depois de três gerações de uso, isso é wabi sabi. Mais na prática: sabe aquela xícara que você ama e quebrou? Que tal colar os pedaços e valorizar a história daquela peça ao invés de simplesmente a jogar fora?

Wabi sabi é, sem dúvidas, uma linda sugestão para treinarmos e colocarmos em prática. Das possibilidades universais a um aspecto bem pessoal, em tudo na vida. É aprendermos a aceitar a nós mesmos e a evitar cobranças (internas) abusivas, mesmo com nossas falhas e fragilidades. Todos somos imperfeitos e essa imperfeição faz parte do nosso ser e de nossa alma.

Leonard Cohen resume bem a ideia: “Existe uma rachadura em tudo. É assim que a luz consegue entrar”.

Wabi sabi em casa

Na decoração, o conceito sugere espaços aconchegantes em tons naturais, calorosos e minimalistas, com um lado rústico mais forte ideal para criar um contraste com peças, mobiliários e ainda uma arquitetura mais modernos. Elementos naturais são mais do que bem vindo, somados a objetos especiais, feitos à mão, e peças vintage. Objetos com significados e imperfeitos.

Rituais de bem estar

As cerimônias de chá japonesas simbolizam a pureza e simplicidade, o que são evidentes também nas peças usadas para beber, feitas à mão. Tradicionais ou não, as xícaras, tigelas e outros objetos do tipo acrescentam um enorme valor a qualquer cozinha e seus momentos.

No guarda-roupa

Apreciar as roupas que já temos e valorizar nossas peças que já acumulam histórias. Valorizar o feito à mão e o que usa matérias primas naturais. Já parou pra pensar que um pequeno sinal de desgaste pode significar uma roupa com mais identidade?

Na cozinha

Seja sobre comer mais alimentos frescos e integrais ou dar preferência às cerâmicas mais artesanais e utensílios de madeira, a cozinha é um lugar ideal para o wabi sabi. Lembre-se sempre de celebrar a energia vibrante que vem dos alimentos que nos fazem bem, do ato de cozinhar sem desperdícios e de compartilhar refeições com quem amamos.

Livros

  • Uma versão atualizada da edição de 1994 do Wabi sabi: a arte japonesa da impermanência, de Leonard Koren.
  • The Wabi-Sabi House, um livro sobre a arte japonesa de encontrar beleza na imperfeição que deixa claro que o conceito não é um estilo de decoração, mas sim sobre uma mentalidade que não traz consigo uma listinha de regras. Aborda a criação de um lar que tem como resultado o desenvolvimento de nossa mente e coração: viver com mais modéstia, aprender a sermos satisfeitos com a vida, eliminarmos o desnecessário e vivermos no momento. Tudo tão sintonizado com o slow e o minimalismo!
  • Veja também um livro infantil que aborda a descoberta da beleza simples e verdadeira em lugares inesperados. E ainda mais livros sobre o tema aqui.

Fontes: Japão em foco, Trip e Shabanladha.

[entrevista] cintia tavares e a yoga livre

Texto Fernanda Cintra
Fotos O álbum

“Yoga — Eu amo, eu pratico” diz a conta no instagram da professora Cintia Tavares, a primeira a ocupar a [nossa] Academia da AHLMA com um curso livre, de média duração. Essa frase é, pra mim, uma boa forma de introduzir essa yogini de 42 anos, capaz de expressar os ensinamentos do yoga de um jeito bastante simples, com muita felicidade.

Praticante desde 2000, Cintia começou, na verdade, no core power yoga — modalidade focada no corpo, muito comum na Califórnia, onde vivia na época. Alguns anos depois, quando ficou grávida, fez uma especialização para gestantes, e aí sim, sua relação com a prática se aprofundou. Em 2010, voltou para o Brasil e teve seu próprio estúdio — onde tentou implementar, sem o sucesso esperado, um sistema de trocas para alunos e professores, entre outros projetos paralelos. Até que em 2015, Cintia voltou para San Diego; e junto da filha de 11 anos, leva a vida no yoga, com o coração aberto para uma existência de prazer e satisfação.

Como a prática de yoga transformou a sua vida? Você vê uma Cintia diferente, antes e depois do yoga?

Sim, e o ponto principal aqui é a capacidade de observação, coisa que eu não tinha. Com o yoga, passei a olhar para as coisas com mais interesse: por que de manhã eu acordo e levanto pelo lado direito, não pelo esquerdo? Porque todos os dias eu faço as coisas sempre da mesma forma? Antes, eu levava uma vida muito mais no automático. Essa foi uma grande mudança que o yoga me trouxe, uma mudança sem volta.

E você acha que essa é uma transformação que acontece de forma gradual?

É, mas por outro lado, o clique vem de uma vez só. E quando ele vem, você sabe o que quer. Mas a consciência, o autoconhecimento, esses vêm com o tempo, de forma gradual. Não poderia ser de outro jeito. Até porque esse é um processo que não termina, não tem deadline, é para a vida toda. E isso é que é incrível e bonito, viver passa a ser uma oportunidade diária de transformação.

Ontem mesmo, eu estava conversando com uma amiga sobre isso, como a busca espiritual relacionada à sabedoria do oriente pode nos levar para um expectativa “mágica”, como se, com a harmonização de chakras, ou o despertar da kundalini, pudéssemos fazer da nossa vida livre de problemas e emoções. Quando, na realidade, a mudança mora no dia a dia, e exige muito trabalho e atenção.

Não, as coisas não deixam de acontecer. Os conflitos estão aí, o que muda é cognitivo. A sua análise dos acontecimentos passa a ser diferente, de forma que você possa sair de cada situação um pouquinho mais forte. A mistificação é enorme, se mistifica até o professor de yoga. Não é por aí, sabe? A transformação está ao nosso alcance, mas precisa ser construída todo dia, a toda hora, a todo momento. Isso foi algo que aprendi na Índia. Você imagina que vai encontrar uma realidade puramente espiritual, e as pessoas serão como deveriam ser. Mas é justamente através das coisas mais precárias, mais banais, que nós entendemos que tudo está ali. E que é através dessa compreensão que nós conseguimos de fato crescer, nos desenvolver e espiritualizar.

Sim, na Índia entendi que a vaca sagrada comia lixo (risos). A gente vai com o coração cheio de expectativas fantasiosas, e quando está lá, percebe que os maiores ensinamentos acontecem por meio das coisas mais simples.

Exatamente. E que você não precisa ir à Índia: os ensinamentos estão disponíveis para todos, e em todos os lugares. Sempre ouvi da minha guru, que está no México, que a Índia estava dentro de mim e que um dia eu entenderia isso. Mas tudo bem, muitas vezes só se ganha essa compreensão indo até lá. No meu caso foi necessário fazer a viagem e cruzar o planeta para entender coisas que estavam muito pertinho de mim. Em compensação, outras coisas que eu não gostaria de ter visto, eu tive que ver. Hoje eu lembro desse período como algo bonito, que me permitiu entender muitas coisas, sobretudo as passagens, como por exemplo, a da minha mãe.

E como é o curso que você está oferecendo na Academia da AHLMA?

Esse curso vem se desenvolvendo há pelo menos 8 anos. Eu sou meio cigana, gosto de estar em vários lugares, e criei um curso que eu pudesse levar para o mundo todo. A princípio eu pensava em retiros, formatos mais imersivos, mas foi quando eu fui para San Diego que eu percebi que a maioria das pessoas precisava de experiências que trouxessem o tal do clique. Nesse sentido, o retiro pode ser um pouco ilusório, porque você sai do seu ambiente, imerge em uma situação ideal, e assim que volta para casa, tudo aquilo que você imaginava ter se despedido, retorna com você. Quando voltei para a Califórnia percebi que muitas das pessoas que eu conhecia que praticavam yoga há muitos anos continuavam saindo do eixo com facilidade, em casa, no trânsito. E a yoga é uma prática inversa a esse tipo de atitude. Eu não me irrito? É claro que eu me irrito. Mas as minhas reações já não tem tanto poder sobre mim.

Então, passei a desenhar um curso de longa duração — pois é importante ter tempo de absorção — que privilegiasse a vivência à teoria, diferente de um curso de fim de semana. São 6 encontros distribuídos ao longo de 3 meses para juntos trabalharmos pranayamas, mudras, mantras, tópicos sobre ayurveda e reiki, e é claro, ásanas. Também quero muito que as pessoas entrem em contato com o yoga nidra e a yoga restaurativa, práticas acessíveis para todos, independente das condições físicas de cada um.

Eu queria que você falasse um pouquinho mais sobre yoga nidra, porque eu vejo que é uma prática ainda recente no Brasil que ganha explicações muito diferentes.

Você já praticou?

Sim, a gente deitava no chão em shavásana* e a professora fazia uma espécie de meditação guiada. Aliás, era difícil não dormir.

É a chamada yoga do sono, né? (risos). Se você dormir, será um relaxamento e tudo bem. Mas se você não dormir, terá um encontro incrível consigo mesmo. É como se diz, a gente só recebe aquilo que a gente precisa. No shavásana por exemplo, tem gente que dorme, gente que chora, gente que experimenta certas sensações pela primeira vez. Se você não dorme em shavásana, você experienciará a absorção de tudo aquilo que foi realizado durante a sua prática. O yoga nidra, por sua vez, é um shavásana extenso. E para que você possa ir mais longe, o que se faz é guiar a mente do praticante para que ele possa permanecer ali e viver o despertar. Para que possa estar presente a cada momento. Tirando que o yoga é uma prática milenar, o yoga nidra ainda é relativamente novo para nós (risos). No ocidente, as posturas é que ainda são muito populares. Ásanas são excelentes e representam cerca de 30% do yoga, mas ninguém precisa de 40 mil posturas para praticar.

*Shavásana, para o yoga, é a postura do cadáver, em que o praticante se deita no chão de barriga para cima, com braços e pernas relaxados.

Isso me faz pensar em todas essas novas formas que a yoga tomou através de modalidades híbridas (como acro e SUP yoga), e nas muitas pessoas que hoje compartilham a sua prática no Instagram. Você acha que esse apelo à performance atrapalha?

Poder ser, mas pessoalmente, acredito que o yoga é livre. Cada um sabe o que tem e o que é. Cada um vive conforme o seu livre arbítrio, e o que você faz com todas essas fotos e posturas acrobáticas, com ou sem a sensibilidade do yoga, é do seu interesse e responsabilidade. Quando eu comecei (na Core Power Yoga) todo mundo com quem eu conversava me dizia que isso não era yoga. Como não, se eu conseguia fazer todas as posturas que o professor pedia? Naquele momento é claro que eu não entendia o porquê, mas essa foi a minha porta de entrada. Então, o que eu penso é: a crítica não faz parte do yoga. Há muitas formas de se chegar a uma compreensão profunda do yoga, você não precisa ser tão rígido. Você sabe o que é yoga? Todos nós estamos buscando e descobrindo. Eu acho o meu trabalho ótimo, mas é possível que o meu mestre, ou qualquer outra pessoa no caminho, há mais ou menos tempo, ache que não. As pessoas também precisam entender que esse tipo de modalidade, acro ou SUP, por exemplo, não são práticas diárias. Elas existem porque o ser humano precisa de novidade, diversidade, novas experiências. E qual é o problema de chamar de yoga? Quando você puder observar que tudo é yoga, com uma mente verdadeiramente liberta, tudo funcionará melhor.

Então talvez o mais importante não seja buscar o melhor professor, mas aquele com o qual você pode se conectar, do lugar que estiver.

Mas o que é o melhor, não é? Essa é a grande questão. Há coisas que precisam estar claras, como por exemplo, a importância da respiração. Se você pratica em um espaço cujo professor não fala em respiração, a minha sugestão é que você experimente outra aula. Mas indicações precisas de com quem se deve estudar, bom, isso eu não tenho. Se com o tempo você começa a observar melhoras, ou que anda se zangando menos, que as condições externas já não te abalam tanto quanto antes — fique tranquilo, está tudo bem. Eu tenho ferramentas para te ajudar a olhar e entender o que acontece aí dentro. Mas para te dizer o que é o melhor, jamais.

Mas é justamente isso que a pessoas buscam, certo? A solução infalível, a resposta pronta.

Sim. Em paralelo ao yoga, eu aplico reiki e, como sou bastante sensível, às vezes recebo mensagens durante a sessão. Conforme isso foi acontecendo, as pessoas passaram a me procurar por conta dessas mensagens, mas o reiki não é sobre isso. As pessoas querem a pílula mágica, a solução mais rápida. Não é à toa que muitas delas, até mesmo as mais jovens, usam tantos medicamentos.

Mas o que eu espero é que você saia da sua prática com uma pequena transformação. Da mesma forma que, muitas vezes, tudo o que você precisa é tomar uma pequena decisão. Uma pequena decisão na sua vida e tudo começa a acontecer.

Falando em medicamentos, como é a sua relação com a medicina ayurvédica?

O yoga e a medicina ayurvédica são irmãos. Ela é um pouquinho mais complexa para se implementar, mas também não é lá nenhum bicho de sete cabeças. Dá para fazer aos poucos, e com o tempo, fazer muito. De repente, você vive nisso. Eu mesma não sou terapeuta — frequentei cursos da Laura Pires quando ainda tinha estúdio aqui no Rio — a minha irmã que é. E ela atende pouquíssimas pessoas. Ensinar e atender dentro do ayurveda exige bastante responsabilidade. Em geral, se procura o ayurveda como uma espécie de cura alternativa, quando já se está bem doente. Ainda é raro que se procure como uma prática de saúde preventiva ou bem-estar.

A gente vive de um jeito em que tudo é tão prático e fácil, que é preciso estar às vezes muito doente para se interessar o suficiente por algo que demande “tanta” disciplina.

Eu sempre tive uma alimentação saudável, balanceada, coisa que aprendi com os meus pais e hoje procuro passar para a minha filha. Mas um grande ganho que o ayurveda me deu é que eu sempre fui muito vata*, avoada, de família cigana. Gosto do vento, do ar, do movimento. Adotando alguns temperos e corrigindo alguns horários eu pude criar raízes e baixar essa necessidade de sair voando por aí. São coisas simples de se aplicar, ainda mais se você já tem a disciplina do yoga. Nesse processo, se eu ainda comia alimentos industrializados, eu deixei de comer, assim como deixei de usar cosméticos. Mas levando essa vida de vício, com tantos medicamentos e alimentos processados, depois que a doença atinge um determinado estágio, não tem jeito: é preciso que seja tratada por um alopata mesmo. O que o ayurveda nos ensina é a observar o sinais do corpo, todos os dias, pra que raramente se precise fazer um tratamento pesado ou até uma cirurgia.

*Vata é um dos doshas da medicina ayurvédica, relacionado ao elemento ar, ao vento e ao movimento.

Então você acha que o processo de autoconhecimento e atenção que o yoga e a tradição védica promovem é muito mais sobre retirar do que, como uma gente imagina, acrescentar?

Sim, é um peeling, você se descasca até chegar em um lugar muito especial do ser. Você diz “nossa, eu sou tudo isso?”. E cada vez mais você se sente leve. Com menos necessidades. Talvez um dos aspectos mais difíceis seja deixar a vida social como ela normalmente é. A introspecção que o yoga promove faz com que a gente ouça melhor, então mesmo as pessoas mais sociáveis podem acabar tendo menos conversas e encontros.

Mas a gente fala demais, e eu percebo o quanto isso se revela através da prática. Se você está sofrendo em uma postura a sua língua é a primeira a se mexer ou tensionar.

É isso. Então a gente entende por que a concentração, a atenção na respiração e o silêncio são tão importantes. O falatório nos leva para outro lugar. Hoje quando chego no Rio, os meus amigos querem fazer muitas coisas, mas eu fico bem em casa. E nem sempre sou entendida. De qualquer forma, essa “calma” não pode se tornar um fator de resistência para mergulhar no yoga. Não é preciso ter medo de se deixar quem se é.

É o mito do zen, né?

A minha filha, por exemplo, quando era menor, vivia dizendo que não queria ser como eu porque ela gostava do agito. E a gente associa o agito ao que é legal, mas gostar de olhar pra dentro e não ter tanta necessidade de externar pode ser muito legal também. Nos Estados Unidos, há festivais de yoga maravilhosos, com uma energia fantástica, feitos para divertir. Se pula, se canta, se dança. Muito. Pode parecer que estão todos alterados, mas não tem droga nenhuma. E pra mim é isso que o yoga representa: a felicidade, o prazer total, a descoberta da potência que se é.

É engraçado pensar nisso, porque quando eu estudava ayurveda via os outros alunos espantados com o estados de bem-estar que a professora descrevia, fruto de uma rotina saudável, equilibrada. As pessoas diziam “meu deus, mas isso é a iluminação”.

A verdade é que as pessoas estão muito acostumadas com o que é ruim. Se alguém vai na minha casa, provavelmente vai achar que está sempre tudo ótimo, em paz. Mas coisas ruins continuam acontecendo, a gente só não ressalta.

Estamos fazendo essa entrevista na semana internacional do yoga, então, para encerrar a nossa conversa, como é afinal ser uma professora de yoga internacional?

É muito gostoso poder ver que estamos todos na mesma vibração. A prática não muda conforme o lugar. Como eu disse lá no início, o yoga mora dentro da gente. O dia internacional do yoga é todo dia, através da sua prática diária. Parece clichê, mas é isso mesmo, como diz um amigo meu, todo dia é seu dia de aniversário. Precisamos viver dessa forma. Mas é sim muito prazeroso ter essa profissão e viajar o mundo conhecendo gente e constatando que a gente é um só. Onde quer que a gente esteja e pratique, a energia é uma só. Vivi muitas mudanças de forma gradual, mas foi quando a minha mãe faleceu que eu tive a grande revelação de que somos todos um. E essa é a revelação do yoga, de união. Olhar para quem quer que seja com amor e felicidade é possível, se esse for o seu desejo. Porque o que eu quero para mim é também o que eu desejo a você. Não há como ser de outra forma. Simples assim.

Gostou das fotos dessa entrevista? Elas foram tiradas no Espaço AHTMA, recém inaugurado no segundo andar da [nossa] Academia da AHLMA. A partir dessa semana ele será ocupado com aulas regulares de [yoga & movimento], em uma grade variada de segunda à sexta, das 7h30 às 20h. Para saber mais, escreva para academia@ahlma.cc ou ligue (21)3449 9167.